Fundación Loros · loros.org

Caminho para a Liberdade

Diário de Campo da Fundación Loros


🗺️ Ver mapa de campo 🏆 Ranking de contribuidores 🪧 Percursos

Trinta nomes para o caminho da liberdade

Naquele domingo, Michel Salas, Jiliam Pomare e Salomé Piza saíram cedo da Casa del Paraíso com um guia botânico debaixo do braço e a intenção de dar nome ao que a mata seca do santuário oferece em silêncio há anos. O percurso seguiu «o caminho da liberdade», aquela trilha que termina exatamente onde as aviárias de Ara aguardam o momento de soltar as araras — um final que empresta um peso particular a qualquer caminhada por ali. Ao longo do trajeto, pararam por volta de trinta vezes: para comparar um galho com sua ficha no livro, para prensar uma amostra entre folhas de papel, para fotografar flores antes que o sol do meio-dia as murchasse. Ali estava a *Caesalpinia pulcherrima* com seus estames compridos como fios de fogo amarelo, a Moringa de flores brancas posta ao lado de sua descrição no guia, o Uvito (*Cordia alba*) recém-cortado e ainda fresco, e o Ébano (*Caesalpinia ebano*) com suas vagens escuras pendendo entre a folhagem. No fim da trilha, diante das aviárias, os três sorriram para a foto. Atrás deles, as colinas verdes e as flores coloridas que bordejaram todo o caminho. Nas mãos, trinta nomes novos — ou melhor dizendo, trinta nomes antigos que a mata já carregava e que eles se encarregaram de anotar.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

O ébano jovem que já floresce

Entre a vegetação densa da reserva, Michel Salas parou diante de uma árvore que não passava de quatro metros, mas que se apresentava como se não precisasse crescer mais: um ébano, Caesalpinia ebano, com as flores amarelas acesas sob o sol de março e as vagens verdes ainda tenras pendendo dos galhos. A árvore é pequena ainda — a espécie pode alcançar portes consideravelmente maiores —, mas já cumpre com o ciclo com toda a seriedade que ele exige. O ébano é uma espécie nativa da região Caribe, resistente à seca e com uma generosidade de usos que impressiona: sua folhagem alimenta o gado, suas flores convocam as abelhas, sua madeira aguenta o que vier. Na Fundação o registramos também pelo nome popular de guacamayo — embora valha esclarecer que esse apelido não é usado em Villanueva, Bolívar —, e é que à árvore não faltam nomes assim como não lhe falta utilidade. Michel tirou seis fotografias que capturam os detalhes das flores, das vagens e o porte completo do indivíduo, com a vegetação tropical ao fundo como testemunha. Um bom achado para o inventário da reserva.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

Uma arara solitária no carambolo

Michel Salas caminhava pelo santuário quando a avistou: uma arara azul e amarela pousada nos galhos de um carambolo que florescia com pequenas flores rosadas e avermelhadas entre folhas de verde intenso. Era um único indivíduo — uma Ara ararauna — e não se perturbou com a presença do observador. Ali estava, curiosa, manipulando a folhagem com aquele bico curvo e negro que parece feito tanto para a brincadeira quanto para o alimento. A árvore tinha frutos em desenvolvimento, ainda verdes e pequenos, e a arara os explorava sem pressa, como quem revisita uma despensa conhecida. Atrás dela, uma bananeira e o céu azul e limpo do meio-dia caribenho completavam a cena. Michel registrou o momento com fotos e vídeo a partir das coordenadas do santuário, a nordeste da reserva. O carambolo — conhecido na região simplesmente como carambolo, embora pertença à família Oxalidaceae — é uma daquelas árvores que conquistaram seu lugar na dinâmica do santuário. Que uma Ara ararauna o visite em plena floração diz algo sobre como esses espaços vão ganhando vida própria, galho a galho.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

Duas plantas, vinte e quatro metros, um inventário

Michel Salas saiu naquele domingo com um propósito claro: anotar o que floresce. Num canto do santuário onde as bananeiras estendem suas folhas como toldos e a terra se mantém escura e úmida, encontrou primeiro uma Mussaenda em plena celebração — brácteas rosa-pálido e creme envolvendo pequenas flores esverdeadas, reluzentes entre a vegetação densa, como se a planta levasse semanas esperando que alguém a olhasse com atenção. Vinte e quatro metros adiante, no segundo ponto do percurso, o achado foi diferente: uma planta silvestre de caules avermelhados e espigas pendentes de cor branco-esverdeada, possivelmente um Amaranthus, com as folhas perfuradas por insetos que já haviam passado antes de Michel. Essa herbivoria — esses pequenos buracos verdes — também é dado, também entra no inventário. Dois pontos georreferenciados, duas espécies, duas histórias distintas de como a vida cresce no mesmo setor do santuário. Assim avança o registro botânico da Fundación Loros: passo a passo, planta por planta, com alguém disposto a parar e olhar.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

Crucetillo em flor diante da casa

Diante da casa do santuário, entre o gramado seco e a sombra de uma buganvília fúcsia, Michel Salas parou diante de um arbusto que passaria despercebido para qualquer olho apressado. Era um crucetillo — Randia aculeata — com seus galhos espinhosos e suas folhas pequenas de um verde intenso, e naquela tarde do dia 22 de março havia flores: tubulares, pendentes, de um amarelo esverdeado mal entreaberto, como se ainda estivessem decidindo se era hora de se mostrar. Michel documentou o achado com três fotografias que capturam o porte do arbusto, seu entorno de jardim tropical e essas flores em pleno processo de abertura. Ao redor, um mamoeiro ao fundo e arbustos com flores rosas e laranjas completavam a cena, lembrando que até o jardim mais cotidiano do santuário guarda suas próprias histórias botânicas. O crucetillo, da família Rubiaceae, é uma planta nativa do Caribe colombiano, conhecida por seus frutos que servem de alimento para aves. Tê-la florescendo na entrada da casa não é um detalhe menor: é um sinal de que o calendário vegetal segue seu curso, pontual e silencioso, nos 520 metros quadrados de Loros.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo

O amarelo ardente de Michel

Entre as coordenadas guardadas pelo santuário há uma planta que naquele domingo não queria passar despercebida. Michel Salas a encontrou em plena floração — uma Caesalpinia da família Fabaceae — com esse amarelo tão ardente que parece roubado de um amanhecer caribenho. Os estames filiformes se abriam como pequenos fogos de artifício silenciosos, e entre os galhos já pendiam vagens alongadas, verdes umas, escuras outras, sinal de que a vida nessa planta corre em disparada. A árvore cresce cercada de companhia generosa: bananeiras que a sombreiam, buganvílias rosas e laranjas que disputam com ela a atenção das cores, e um céu parcialmente nublado que no dia 22 de março não se decidia entre chover ou ficar quieto. As quatro fotografias que Michel tirou naquele dia capturaram flores abertas, botões em desenvolvimento e o porte geral do indivíduo — um retrato completo de uma planta que já tem nome, coordenadas e lugar na caderneta de campo do santuário.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

Duas árvores, duas caixas, nenhum inquilino

Michel Salas percorreu ontem uma faixa de vegetação tropical na Fundación Loros com os olhos voltados para as árvores, não para o chão. A primeira que encontrou foi um mamón — Melicoccus bijugatus — alto e frondoso, com uma faixa branca enrolada ao tronco para afastar os animais que tentassem escalar. A caixa-ninho já estava instalada entre seus galhos, embora a árvore tenha chegado sem frutos ao encontro: ainda não é sua estação. A poucos metros, outra árvore esperava com mais generosidade. O mamey — Manilkara zapota, da família Sapotaceae — exibia seus frutos maduros de casca áspera e cor marrom-avermelhada pendurados entre a folhagem densa. No tronco, algumas lâminas de metal faziam as vezes de escudo contra qualquer animal com intenções de subir. Também tinha sua caixa-ninho, também instalada antes, também vazia. Duas estações preparadas, duas portas abertas. Não havia ninguém lá dentro naquele domingo, mas as caixas seguem no lugar, espiando entre os galhos sob um céu nublado de março, à espera do inquilino que ainda não chegou.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo

Um papagaio solitário no ficus

Entre a folhagem reluzente de um ficus, onde a seiva leitosa escorria pela casca como se a árvore suasse sob o calor de março, Michel Salas encontrou um papagaio-de-asa-laranja pousado com a calma de quem passa a manhã inteira no mesmo lugar. A ave estava sozinha. Verde intenso no corpo, cabeça amarela, e aquela cauda acesa em laranja, vermelho e amarelo que parece ter sido feita para contradizer a monotonia da selva. O Amazona amazonica não se abalou. Deixou-se fotografar entre os galhos do Ficus — família Moraceae, uma dessas árvores generosas que produz fruto e sombra em igual medida — enquanto o exsudato leitoso do tronco marcava o ar com seu cheiro característico. Não havia outros indivíduos por perto. Apenas aquele papagaio, aquela árvore, e Michel com o olho colado na lente.
Foto de campo

A dormideira florida entre a folhagem seca

Na tarde do dia 22 de março, Michel Salas e Salomé Piza encontraram nos terrenos da Fundación Loros algo que facilmente se perde entre a folhagem: uma dormideira em flor. A planta, *Mimosa pudica*, crescia sobre solo seco e coberto de folhas caídas, com seus galhos finos carregados de botões verdes apenas despontando, e uma flor já aberta exibindo seus filamentos brancos com um toque amarelo — discreta e precisa, como costumam ser as coisas que mais valem a pena. A dormideira é daquelas plantas que quase todo mundo já tocou quando criança para ver encolher, mas poucas vezes alguém para para olhá-la de verdade. Pertence à família Fabaceae, subfamília Mimosoideae, e seu florescimento nesse ambiente de transição estacional diz algo sobre o estado do solo e o momento do ano. Michel e Salomé a fotografaram e deixaram o registro com coordenadas precisas: 10.4473°N, 75.2620°O. Um achado pequeno em tamanho, mas exato no que conta.
Foto de campo

Senna em flor e coração de bananeira

Michel Salas caminhou esta tarde pela zona do santuário com os olhos bem abertos e a câmera pronta. Entre as descobertas do percurso, encontrou um trecho rural onde várias bananeiras — Musa sp. — exibem seus cachos verdes pendendo pesados e suas flores de cor púrpura intensa, essas inflorescências que parecem um coração recém-nascido. Ao fundo, mangueiras com frutos espiando entre a folhagem, e uma pequena construção de tijolo com telhado de zinco que confere ao lugar aquele ar de sítio caribenho de toda a vida. Mas a outra descoberta do dia foi mais sutil e talvez mais marcante para quem saiba olhar com atenção: uma planta do gênero Senna — família Fabaceae, subfamília Caesalpinioideae — florescendo em meio à vegetação densa do bosque. Michel a segurou entre os dedos para mostrá-la melhor, e na foto veem-se as flores amarelas abertas ao lado de vários botões que ainda aguardam a sua vez. Esse amarelo limpo contra o verde escuro da mata é um dos presentes que o santuário sabe oferecer sem avisar.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

Dois coquilhos sobre a terra seca

Jillian Pomare chegou naquele domingo com duas plantas na mão, raízes e tudo. Depositou-as sobre o solo arenoso e compacto, onde as marcas de pisadas contavam o vai e vem do trabalho de campo. Eram dois exemplares de Cyperus sp. — o que nestas terras conhecemos como coquilho ou junco — com seus caules triangulares inconfundíveis e suas inflorescências abertas como pequenos plumeiros: um ainda amarelo-esverdeado, o outro já seco e dourado, como se o tempo entre os dois tivesse passado numa questão de centímetros. O registro ficou assim: duas plantas arrancadas pela raiz, depositadas sobre terra árida, sem outra companhia além de uma folha seca caída ao lado. Não havia animais, não havia gente à vista. Apenas aquele gesto silencioso de tirar algo do chão para olhá-lo de perto, que é muitas vezes o primeiro passo para entender o que está crescendo — e o que está deslocando — nos terrenos abertos da reserva. O coquilho é uma erva daninha persistente em zonas agrícolas, e sua presença aqui merece atenção.
Foto de campoFoto de campo

O mamón que carrega epífitas em silêncio

Na floresta secundária da Fundación Loros, onde a terra seca guarda tapetes de folhas caídas e os troncos cortados guardam histórias mais antigas, Michel Salas parou diante de uma árvore que não precisava se anunciar. Era um mamón — Melicoccus bijugatus, da família Sapindaceae — com o tronco cinza e robusto abrindo-se para cima em galhos que tecem uma copa generosa contra o céu encoberto. Sobre a casca, quase como inquilinos discretos, crescem plantas epífitas que poderiam ser bromélias ou samambaias, instaladas sem pedir licença. Naquele domingo, Michel não registrou nenhuma fauna visitando a árvore — nem loros, nem aves, nem nada que se movesse entre seus galhos. Mas o mamón estava lá, firme nas coordenadas 10.4473, -75.2618, com suas raízes superficiais se estendendo sobre a terra como dedos quietos. Às vezes uma árvore não precisa de testemunhas para importar; basta que alguém a encontre e diga: aqui está, existe, a vimos.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo

Duas cores plantadas à beira d'água

Num recanto do santuário onde o caminho de terra se perde entre a vegetação tropical, Michel Salas encontrou algo que não era inteiramente selvagem: duas buganvílias plantadas, quietas e acesas em plena floração. A primeira, de brácteas rosa fúcsia, cresce à beira de um tanque de águas esverdeadas, tão vistosa que parece pegar fogo contra o céu azul do Caribe. A segunda, branco-cremosa, aparece mais discreta entre os troncos finos de um caminho sombreado, como se preferisse o silêncio. O que Michel fotografou não são flores no sentido estrito: são brácteas, folhas modificadas carregadas de antocianinas, os mesmos pigmentos que tingem as amoras e as berinjelas. No centro de cada grupo de brácteas, quase escondidas, é que florescem umas pequenas flores tubulares branco-amareladas. A cor que se vê — esse fúcsia que faz o passo hesitar — depende da luz, do pH do solo e da saúde da planta. Ambas são espécies introduzidas na Colômbia, cultivadas pelo ser humano a partir de *Bougainvillea glabra* e *Bougainvillea spectabilis*, originárias da América do Sul mas estranhas a esses solos do Caribe colombiano. Alguém as trouxe, alguém as plantou, e lá estão, habitando o santuário com uma beleza que não pediu licença para ficar.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo

O limoeiro que ninguém se lembra de ter plantado

Michel Salas caminhava pelo santuário quando se deparou com ele: uma árvore de limão (*Citrus × aurantiifolia*) que alguém plantou em algum momento, num dia que ninguém soube precisar. Está nas coordenadas 10.4475, -75.2618, dentro da área do santuário da Fundación Loros, cercada de vegetação tropical exuberante e de buganvílias rosas e vermelhas que surgem ao fundo como se quisessem contar alguma coisa ao céu azul daquela tarde de março. Não há data de plantio. Não há nome de quem a colocou ali. Só a árvore, quieta e enraizada, com suas folhas brilhantes filtrando a luz da tarde, indiferente ao mistério de sua própria origem. Há algo de tocante nisso: que alguém, em algum momento, decidiu plantar um limoeiro nesse canto do santuário, e que a árvore continuou crescendo sem precisar que ninguém a lembrasse. Fica registrado. Se alguém souber quem a plantou e quando, o diário tem espaço para essa história.
Foto de campo

Vermelho alheio entre folhagem própria

Michel Salas caminhava pelo terreno quando se deparou com algo que não se encaixava bem: um arbusto de hibisco em plena floração, com suas flores vermelho-rosadas de pétalas duplas se abrindo ao sol da tarde. Chamativo, sem dúvida. Mas o *Hibiscus rosa-sinensis* não é daqui — chegou, como tantas plantas ornamentais, porque alguém um dia quis enfeitar um jardim. As palmeiras ao fundo e o céu aberto completavam uma cena tropical, quase de cartão-postal. Só que na Fundación Loros esse tipo de cartão-postal tem matizes: o que reluz nem sempre pertence. O registro fica no inventário do terreno nas coordenadas 10.4474, -75.2618 — uma anotação à margem sobre o que cresce nessas 520 hectares, o nativo e o que chegou depois.
Foto de campo

O número 2 e seus doze companheiros

Durante anos, o guacamayo número 2 carregou um veredicto que parecia inapelável: era manso demais para viver em liberdade. Havia crescido tão perto dos humanos, tão habituado à presença deles, que muitos duvidavam que ele pudesse encontrar seu lugar entre as árvores. Mas os animais, às vezes, se encarregam de desmentir tudo o que acreditamos saber sobre eles. No dia 21 de março, Alejandro Rigatuso o encontrou no setor dos aviários de Ara, perto do Cerro El Peligro, e o que viu não deixava espaço para dúvidas: o número 2 voava integrado a um bando de cerca de doze guacamayos, como se sempre tivesse sido assim. Já faz meses que estão em liberdade. Ele não é mais o guacamayo manso dos aviários — é mais um entre doze, num bando que se move e decide junto. Às vezes a mansidão não é uma condenação, mas simplesmente o ponto de partida.

Ceibas na seca, caminho ao Peligro

Em plena estação seca, quando a floresta mostra seus ossos, um grupo de alunos partiu de La Manga em direção a El Peligro sob a guia de José Marín. A paisagem que encontraram era a da floresta seca tropical sem disfarces: capim amarelado, arbustos empoeirados e árvores que haviam soltado suas folhas como quem tira um casaco. Nesse cenário de aparente aridez, registraram três ceibas — esses gigantes de casca cinza com espinhos que impõem respeito à distância — e um orejero (Enterolobium cyclocarpum) que se sustentava solene entre a vegetação rala. A descoberta mais curiosa do dia foi um fruto seco aberto da família Apocynaceae, encontrado no início do percurso. A casca exterior era verde-acinzentada, mas por dentro guardava uma surpresa: uma semente coberta de fibras avermelhadas e peludas, como se a árvore tivesse escondido algo macio no meio de tanta aspereza. Alguém o fotografou com o céu azul ao fundo e o mato pelado no horizonte, e a imagem ficou como um pequeno retrato do que a floresta seca é capaz de guardar mesmo em seus dias mais áridos.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

O tronador, a trepadeira e o fruto que ninguém nomeia

Michel Salas saiu naquele domingo pelos caminhos de terra da reserva com a câmera pronta e os olhos bem abertos. No primeiro ponto que registrou, a vegetação o recebeu com uma abundância silenciosa: uma trepadeira de frutos vermelho-alaranjados partidos ao meio, exibindo suas sementes negras como se posassem para ele; mais acima, outra trepadeira diferente deixava cair flores rosa-lilás entre a folhagem verde contra o azul do meio-dia. E dominando o conjunto, o tronador — aquela árvore de porte majestoso e tronco espesso que a gente daqui conhece bem pelo seu nome, embora a ciência ainda não tenha chegado a um acordo com eles. A uns quinhentos metros a leste, a paisagem mudava de tom. O caminho ficava mais seco, mais arenoso, com arbustos que já começavam a acusar o peso da estiagem. Foi ali que Michel encontrou o fruto mais curioso do dia: pequeno, verde, canelado, com a forma exata de uma abóbora em miniatura. Segurou-o na palma da mão para fotografá-lo bem. Ninguém na equipe soube dizer o nome. Às vezes o mato guarda seus segredos assim, sem pressa, esperando que alguém volte a perguntar.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

O orejero que carrega história e esquilos

Michel o encontrou ereto e solitário no matorral seco, com o tronco cinza se dividindo em direção ao céu como braços abertos: um orejero de grande porte, Enterolobium cyclocarpum, documentado em um dos setores mais áridos do santuário. O que mais chamou atenção foi vê-lo em dois tempos ao mesmo tempo — as vagens maduras, negras e salientes, pendendo ao lado de pequenas flores brancas e felpudas, como se a árvore não quisesse escolher entre o passado e o futuro. O orejero carrega consigo vários séculos de uso. Com seus frutos se prepara o doce de carito, aquele sabor que os moradores do Caribe colombiano conhecem bem, e também servem para aliviar infecções de garganta. O tronco e os galhos alimentam fornos de carvão pesado. Mas há um detalhe que Michel mencionou quase de passagem: os esquilos frequentam muito essa árvore, atraídos por suas sementes e vagens. Assim, em silêncio, o orejero passa décadas sendo despensa, remédio e refúgio. Fica registrado nas coordenadas exatas onde Michel o encontrou, dentro do matorral tropical seco da reserva. Uma árvore que, ao que parece, nunca precisou que ninguém lhe explicasse para que serve.
Foto de campoFoto de campo

Um totumo carregado e sem testemunhas

Sob um céu azul de março, Michel caminhava pela paisagem rural quando se deparou com ele: um totumo de porte médio, galhos estendidos para todos os lados, carregado de frutos escuros e arredondados em diferentes estágios de maturação. A árvore estava sozinha, sem a companhia de pássaros ou mamíferos que viessem disputar tamanha abundância. Michel tirou as fotos, registrou as coordenadas e o adicionou ao mapa de recursos alimentares da Fundação. O totumo — *Crescentia cujete* — é daquelas árvores que no Caribe colombiano se tomam como certas: seus frutos aparecem em quintais, pastagens e beiradas de estrada desde sempre. Mas para as espécies que a Fundação protege e reabilita, uma árvore em plena produção é exatamente o que o mapa precisa: um ponto de referência, uma despensa marcada, uma promessa de que o alimento estará ali quando for necessário.
Foto de campoFoto de campo

O tamarindo fértil da savana

Sob um céu azul sem desculpas, Michel Salas parou diante de uma das árvores mais antigas e reconhecíveis do santuário: um tamarindo de tronco grosso e copa larga que naquele domingo, 22 de março, se mostrava carregado de vagens. Os galhos se estendiam para todos os lados como braços que oferecem algo, e entre eles pendiam os frutos escuros e curvados do Tamarindus indica, confirmando que a árvore atravessa uma temporada fértil. Michel registrou a presença do indivíduo com duas fotografias e sua localização precisa. A árvore já constava no mapa do santuário, mas o relato de hoje lhe acrescenta algo importante: está produzindo frutos, ativa, em bom estado. Numa zona de vegetação seca como esta, onde o pasto amarelece e os arbustos se aconchegam contra o solo, esse tamarindo é uma despensa aberta para a fauna do lugar. A crônica ficou registrada no diário de campo com coordenadas, fotos e a assinatura de Michel. O tamarindo continuará ali, distribuindo vagens entre aqueles que souberem procurá-lo.
Foto de campoFoto de campo

Michel encontra moringa entre os uvitos silvestres

Naquele domingo de março, Michel Salas caminhava entre os arbustos do santuário quando os uvitos o fizeram parar: várias árvores carregadas de cachos com frutos que iam do verde ao amarelo sob um céu sem uma única nuvem. Ele os fotografou de baixo, com a folhagem fechando-se sobre o azul, e seguiu em frente. Mais adentro, no entrelaçado de galhos e trepadeiras do sub-bosque, encontrou duas plantas a mais. Uma, que os moradores da região conhecem como pica pica: urticante, com vagens secas e frutos, cuja identidade taxonômica exata ainda aguarda confirmação. A outra, sustentada entre suas mãos e cotejada com a página 69 do guia de campo, revelou-se ser moringa — Moringa oleifera — completamente silvestre, com suas folhas pinadas e suas flores brancas abertas sobre um solo ressecado de vegetação tropical seca. Ninguém a plantou ali. Estava sozinha, florescendo sem que ninguém a convidasse.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

A sangresuela que engana e encanta

Michel Salas caminhava entre o mato quando a encontrou: uma plantinha de caule fino, folhas ovaladas e, surgindo entre a folhagem seca, uma fileira de bagas vermelhas tão intensas que pareciam recém-pintadas. Era a Rivina humilis, conhecida por aqui como sangresuela, e não demorou para que ele se lembrasse do uso que as crianças da região fazem dela — espremem essas bagas contra a pele e aparecem com o braço manchado de vermelho, fingindo feridas que assustam as mães e arrancam gargalhadas dos amigos. A planta estava em plena floração, com seus botões em cachos apontando para o alto e os frutos maduros pendendo como pequenas contas de colar. Michel a fotografou nas coordenadas do santuário, naquele cantinho de vegetação rasteira e capim palha onde a Rivina humilis, da família Petiveriaceae, cresce quase em silêncio, sem chamar a atenção de quem não sabe procurá-la. Mas uma vez que você a vê — com aquele vermelho vivo entre tanto verde e terra seca — já não há como ignorá-la.
Foto de campo

As flores brancas de Michel no sendeiro

Entre a vegetação densa do santuário, Michel Salas avançava devagar por um dos sendeiros internos com o olhar atento de quem sabe que a floresta sempre guarda algo. Era 22 de março quando, mochila às costas, ele parou diante de uma árvore que o deteve de repente: um Pseudobombax ellipticum em plena floração, com suas flores brancas explodindo em cachos de estames finos como fios de seda. A espécie, conhecida popularmente como algodão-de-seda, pertence à família Malvaceae e tem uma floração que não passa despercebida: essas flores sem pétalas visíveis, puro estame, parecem pompons suspensos entre os galhos. Michel a fotografou e a registrou no inventário botânico que conduzia naquela tarde nas coordenadas ao norte da reserva. O achado ficou consignado: um indivíduo florido, documentado, num recanto da floresta por onde passam os sendeiros, mas nem sempre a atenção.
Foto de campo

A liana que sangra leite no cerrado seco

O solo estava tão rachado que parecia um mapa partido em mil pedaços. Foi assim que Michel Salas encontrou o terreno quando saiu para fazer seu percurso de inventário de flora naquele canto do santuário onde o monte seco aperta e a vegetação se dispersa como se também estivesse à procura de sombra. Entre arbustos e vagens pendentes, Michel foi anotando, fotografando, tocando folhas e frutos com a calma de quem sabe ler o campo. A descoberta do dia foi uma liana. Ao cortá-la, ela soltou um exsudato abundante — aquele "leite" branco que é sinal inconfundível da família Apocynaceae, subfamília Asclepiadoideae. Mais adiante, outro presente: um fruto já aberto, exibindo para fora suas fibras brancas e sedosas como se oferecesse algo. Na palma da mão, Michel reuniu três sementes negras com a radícula já despontando — germinando ali mesmo, ao ar livre, prontas para que o vento as leve a outro canto do santuário. No total, seis registros fotográficos de uma jornada curta, mas densa. O monte seco guarda muito mais do que revela à primeira vista.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

As campaínhas azuis de La Manga

No domingo, 22 de março, Michel Salas se abaixou entre a vegetação densa de La Manga e encontrou o que o santuário guardava sem anunciar: uma planta de campaínhas silvestres com flores azul-violáceas em forma de trombeta, botões verdes fechados esperando sua vez de abrir. Era uma Convolvulaceae — provavelmente Ipomoea — crescendo rasteira e discreta entre ervas secas e plantas entrelaçadas, como se estivesse ali há muito tempo sem que ninguém tivesse percebido. Michel a fotografou duas vezes: primeiro de longe, onde se vê a mancha de cor em meio a tanto verde; depois com a mão segurando um galho para mostrar o detalhe dos botões. Nessa segunda foto tudo está dito: a planta, a mão, a espessura ao fundo. O achado ficou georreferenciado nas coordenadas 10.444474°N, 75.257507°O, mais um ponto no mapa vivo do santuário. As Ipomoea são mestras do disfarce — aparecem onde menos se espera, trepam, rastejam, florescem em azul quando o resto da mata está no verde — e este registro de Michel é um lembrete de que La Manga ainda tem coisas a mostrar para quem se abaixar para olhar.
Foto de campoFoto de campo

A liana que amadurece do verde ao marrom

Na trilha de terra que atravessa a floresta tropical da reserva, Michel Salas parou diante de uma liana que pendia generosa entre as copas, com aquela folhagem verde-brilhante que parece absorver toda a luz da manhã. Caderno na mão, Michel ergueu um galho para examiná-lo de perto: pertence à família Sapindaceae, um grupo que inclui desde o mamoncillo até o guaraná, e que nessas florestas encontra sua expressão mais selvagem na forma de cipó trepador. Os frutos mal despontavam, ainda verdes e imaturos, guardando a promessa de se tornarem marrons quando chegasse a hora. Enquanto Michel anotava os detalhes, um cachorro marrom vagava pela trilha atrás dele, alheio à descoberta, como se a floresta fosse o lugar mais natural do mundo para passar a tarde. As coordenadas foram marcadas, as fotos tiradas, e a liana continuou pendendo sobre o caminho, tão quieta e paciente como sempre.
Foto de campoFoto de campo

O que floresce sem que ninguém o semeie

No domingo, 22 de março, Jillian Pomare percorreu os jardins e as áreas florestadas do santuário com a calma de quem não busca nada em especial e acaba encontrando tudo. Entre a grama verde e a sombra generosa das árvores grandes, surgiu uma flor de Canna indica — coral puxando para o salmão, com as pétalas abertas como se estivesse há dias esperando que alguém a notasse — que Jillian ergueu em direção à luz do sol para imortalizá-la. Mais adentro, o percurso foi deixando imagens do santuário em seu estado mais cotidiano: a folhagem cerosa e escura do que parece um ficus maduro, os galhos estendidos do dossel filtrando o céu azul de março, e o telhado vermelho da casinha rural espiando entre a vegetação como parte natural da paisagem. Nada de extraordinário à primeira vista, mas sim a confirmação silenciosa de que o lugar está vivo e em bom estado. Às vezes o diário não registra eventos, mas presenças. Este foi um desses dias.
Foto de campoFoto de campo

A floresta que ensina botânica em Cartagena

No domingo, 22 de março, José Marín adentrou o bosque da Fundación Loros acompanhado de um grupo de estudantes de Botânica da Universidad de Cartagena. A trilha foi os recebendo aos poucos: primeiro a sombra espessa de uma árvore de galhos abertos, depois o túnel verde que a vegetação forma sobre o caminho de terra, com a luz do sol se insinuando entre a folhagem e desenhando manchas douradas no chão. Ao fundo, as colinas seguiam cobertas daquele verde que não pede licença. Enquanto avançavam, o grupo foi nomeando o que a mata lhes mostrava: zarza enredada nas bordas do caminho, lianas suspensas com aquela paciência lenta que têm as plantas trepadeiras. José reportou que havia muito mais espécies de importância botânica na área — o inventário mal havia começado quando enviaram a última mensagem: ainda estavam lá dentro, buscando. Há algo que vale a pena numa aula de campo que não termina na hora certa porque o bosque tem mais a oferecer. Foi isso o que aconteceu naquele domingo na reserva: o santuário cumpriu seu papel sem anunciá-lo, e os estudantes foram embora com as mãos cheias.
Foto de campo

Uvita carregada em La Manga del Peligro

No setor que os da Fundación chamam de La Manga del Peligro, Michel Salas ergueu a câmera em direção ao céu do meio-dia e capturou o que a árvore tinha a oferecer: uma copa aberta, generosa, com os galhos terminando em cachos de frutos brancos como pequenas pérolas. Era um dia de sol limpo, daqueles em que o azul do céu sobre Cartagena parece recém-pintado. A árvore é uma uvita — Cordia dentata, conhecida por estas matas pelos seus frutos miúdos que atraem aves e mamíferos quando amadurecem — e naquele domingo estava bem carregada. Michel não avistou animais naquele momento, mas os frutos não mentem: quando a uvita está assim de plena, a visita é apenas uma questão de tempo.
Foto de campoFoto de campo

La Manga del Peligro floresce em sâmara

Naquele domingo, Michel Salas saiu sozinho para percorrer La Manga del Peligro sob um céu sem nenhuma nuvem, daquele azul intenso que só aparece quando o verão aperta de verdade na Costa. O matagal estava naquela transição particular que tanto encanta os botânicos: mistura de verde vivo e marrom seco, galhos entrelaçados carregados de vagens que rangem com o vento. Michel documentou com cuidado dois pontos GPS e foi registrando o que o mato tinha a mostrar: uma liana com frutos em sâmara, essas estruturas aladas e leves que o vento levará para longe quando chegar a brisa certa, e várias árvores da família Fabaceae com cachos densos de legumes secos cor de bege que pendiam pesados dos galhos. Mas o achado mais preciso do dia foi uma planta que Michel reconheceu sem hesitar: Brickellia sp., da família Asteraceae, com seus frutos secos e plumosos se dispersando pelo mato como pequenos foguetes de algodão. É uma espécie pouco frequente nos registros da reserva. Seis fotografias ficaram como testemunho de um setor que, a julgar pelo que se vê nas imagens, guarda muito mais do que entrega à primeira vista.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

Vagens pendentes e ovos de louva-a-deus no dossel

Michel Salas ergueu os olhos entre a folhagem e encontrou o que a floresta havia deixado ali para quem soubesse enxergar: uma liana da família Bignoniaceae escalando entre as copas, com suas vagens longas e escuras balançando devagar contra o céu azul de março. Lá de baixo, a massa de galhos e folhas de formas distintas parecia um tecido cerrado, quase impenetrável — mas as vagens pendentes a denunciavam. Mais abaixo, num galho fino ao alcance da mão, Michel encontrou algo mais discreto: uma ooteca de textura rugosa e cor acinzentada, colada com a firmeza de quem sabe que ali dentro vem algo importante. Poderia ser de mantis religiosa ou de outro inseto — o campo nem sempre entrega todas as respostas de uma só vez. O que ficou claro é que naquele canto da reserva, entre lianas e galhos entrelaçados, a vida estava ocupada com os seus próprios assuntos.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo

O uvito e a pringamosa florescem juntos

Naquele domingo, 22 de março, Michel Salas adentrou a mata sob um azul de céu intenso que só a manhã seca da Costa sabe dar. Entre o mato cerrado da reserva, onde os galhos se entrelaçam e a folhagem seca range sob os pés, encontrou o uvito florescendo de novo — a mesma planta trepadeira de flores branco-amareladas que já deixou sua marca em outras entradas desta caderneta — pendurada nos arbustos como se nunca tivesse parado de crescer desde a última visita. A poucos metros, quase escondida entre a vegetação arbustiva, Michel identificou dois indivíduos de Urera baccifera, a pringamosa que tanto respeito inspira em quem a roça sem querer. Ali estava ela, com suas folhas lobadas de verde amarelado, os caules eriçados de espinhos finos e os pequenos cachos de flores brancas despontando no alto. Não se deve tocá-la, mas sim contemplá-la: naquele canto das 520 hectares, a pringamosa floresce com a mesma calma de tudo ao redor. Michel registrou quatro fotografias e dois pontos GPS da área — coordenadas 10.4456°N, 75.2598°O — antes de seguir em frente. A mata tropical faz o que lhe cabe, silenciosa e pontual.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

A guacamaya azul pousada entre o ají guai guao

No dia 25 de janeiro, Salomé Piza e Michel Salas caminharam pelo matorral da reserva sob um céu aberto, daqueles que fazem o verde das bananeiras brilhar como se fosse recém-lavado. No primeiro ponto do percurso, entre as folhas largas das Musaceae e os penachos verdes do bredo — esse Amaranthus retroflexus que nasce sem que ninguém o plante —, encontraram o que valia a caminhada: uma Ara ararauna, a guacamaya azul e amarela, pousada em silêncio sobre a folhagem. Está em processo de reabilitação, e naquele dia se deixou filmar sem pressa, como se soubesse que havia tempo de sobra. Alguns metros mais ao norte, o mato se fechava. Salomé e Michel registraram uma Fabaceae de vagens secas que pendiam marrons dos galhos — espécie ainda aguardando confirmação — e um arbusto carregado de frutos em todos os estágios possíveis: verdes, laranjas, negros. Era Capsicum frutescens, o ají guai guao, como chamam as pessoas do campo por aqui. Com esse último registro encerraram o dia, com a reserva revelando, aos poucos, o que guarda dentro de si.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo

A Casa Plantada desperta em março

Gerard O'Neill chegou à Casa Plantada com a câmera na mão e encontrou um canto que parecia ter florescido de uma só vez. Em um único percurso, registrou 14 espécies: a buganvília de roxo aceso que já vivia ali antes de alguém lhe dar um nome, o corozo esguio recortado contra o céu azul, a bananeira com seu cacho tenro e a flor rosada pendendo como uma lanterna, e uma Cordia alba — o uvito da família Boraginaceae — carregada de frutos verdes em cachos sobre os galhos. O mais inesperado foi a Sansevieria em flor. Essa planta de folhas mosqueadas, que passa anos sem dar nenhum sinal de floração, surgiu com um cacho de flores amarelo-esverdeadas e estames finos como fios. Perto dela, as cannas exibiam suas cores: uma laranja-salmão segurada entre os dedos de Gerard, outra vermelho-rosado com os botões ainda fechados. Apareceu também o que poderia ser um caramboleiro com seus frutos em formação, e um arbusto com folhas perfuradas por algum inseto — detalhe menor que a lente não deixou escapar. A Casa Plantada amanheceu naquele domingo, 22 de março, com várias espécies florescendo e frutificando ao mesmo tempo, como se o lugar inteiro tivesse combinado de mostrar tudo de uma vez.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

Mariposa e mamão, uma aliança espontânea

Naquele domingo de março, Michel Salas caminhava pelo santuário quando a flor de um mamoeiro o deteve. A planta, uma *Carica papaya* da família Caricaceae, estava em plena floração, suas flores abertas e férteis sob o céu azul intenso das dez da manhã. Pousada sobre elas, uma borboleta que Michel identificou como *Parides photinus* cumpria seu ofício antigo: ir de flor em flor carregando o pólen sem o saber, sem pressa, com a precisão silenciosa de quem faz o mesmo há milhões de anos. Alguns passos adiante, outra descoberta o surpreendeu: uma planta de pimenta (*Capsicum sp.*) que ninguém havia semeado, crescendo sozinha entre a vegetação tropical, com seus frutos verdes ainda firmes e pequenos despontando entre folhas reluzentes. Ao lado de uma estrutura rústica de palha, a planta havia decidido por conta própria que aquele era o seu lugar. Na Fundación Loros, às vezes a natureza não pede licença.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo

A sábila que floresceu no quintal

No dia 22 de março, Salomé Piza encontrou algo que pouca gente nota, mesmo tendo diante dos olhos: uma sábila em plena floração. A planta estava ereta num jardim da área de influência da Fundación, com aquele caule longo e firme que se lança para o alto quando chega a hora, cercada de suas folhas grossas e espinhosas que guardam água como um segredo. O sol caía pesado sobre o chão seco, e ao fundo, uma buganvília rosada acendia de cor a estrutura de madeira pintada em tons vivos. O Aloe vera — a sábila de sempre, aquela que vive em vasos e quintais de geração em geração — raramente é o centro de qualquer avistamento. Mas este registro tem o seu valor: documenta que no entorno da reserva existem plantas com longa história de uso humano que também florescem, também cumprem seus ciclos, também merecem que alguém as olhe com atenção. Salomé a olhou, a fotografou e a registrou. Às vezes é assim que começa o monitoramento: com o que está perto, com o que sempre esteve ali.
Foto de campo

Campanilla morada entre as pedras do santuário

Foi Michel Salas quem a encontrou primeiro: duas flores de um violeta quase impossível, abrindo caminho entre as pedras e a terra arenosa dentro do santuário da Fundación Loros. Era Ruellia simplex, a campanilla morada, com suas pétalas largas e delicadas que contrastam com os caules avermelhados e as folhas longas e escuras que as sustentam. A luz do meio-dia caía direta sobre elas, fazendo com que a cor parecesse ainda mais intensa contra o solo claro. O que chamou a atenção não foi apenas a beleza da planta, mas o lugar: crescendo sozinha, sem companhia aparente, sobre um terreno árido com cascalho, como se tivesse decidido se instalar ali por conta própria. Michel levantou a câmera e a deixou registrada para a caderneta de campo. Gênero Ruellia, família Acanthaceae. Uma pequena nota de cor no mapa vivo do santuário.
Foto de campo

O uvito que floresce e frutifica ao mesmo tempo

Naquele domingo de março, Michel Salas percorreu o jardim do santuário com a calma de quem sabe olhar devagar. Entre os canteiros de cimento e o solo arenoso que o sol resseca sem piedade, foi encontrando uma a uma as plantas que convivem naquele canto verde da Fundação: a Ixora com seus cachos de flores vermelhas acesas, a bugambília derramando seu roxo sobre os galhos da amendoeira, e a sábila expandindo-se em rosetas carnosas perto da área de lazer. Mas foi o uvito — um Cordia alba de porte generoso e copa ampla — quem roubou a tarde. Michel o fotografou com flores amarelo-alaranjadas e frutos verdes ao mesmo tempo, essa raridade fenológica que ocorre entre fevereiro e março no Caribe colombiano. Espécie nativa de Bolívar e de quase todo o litoral, o uvito é árvore de muitos ofícios: fornece lenha, compõe cercas vivas, alimenta o gado e os polinizadores, e oferece frutos doces que os humanos também podem comer. Suas flores têm sido usadas na medicina tradicional contra dores de estômago e bronquite. O que as fichas técnicas raramente contam é quem leva suas sementes até o bosque: o morcego frugívoro Carollia perspicillata, esse pequeno navegante noturno que trabalha em silêncio enquanto o jardim dorme.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

O mamoeiro que dá as boas-vindas

Na entrada do santuário, onde o caminho de terra se abre entre a vegetação tropical, há um mamoeiro que recebe quem chega. Salomé Piza o encontrou esta manhã carregado de frutos verdes colados ao tronco e com flores amarelas despontando entre a folhagem, como se a árvore quisesse mostrar tudo o que tem ao mesmo tempo. Alguém o plantou aqui com intenção, ao lado de uma estrutura de madeira que faz as vezes de portal de entrada para o lugar. A Carica papaya não é uma espécie silvestre do santuário, mas sua presença cultivada nesse ponto tem uma lógica simples e generosa: uma árvore frutífera na porta é sinal de que o lugar está vivo e habitado. Com o céu azul e limpo ao fundo e a espessura verde se fechando dos dois lados, este mamoeiro parece ter encontrado exatamente onde queria estar.
Foto de campo

B177 tem asas mas esqueceu de usá-las

No aviário 1, agarrado à tela metálica com a tranquilidade de quem já ficou parado tempo demais, o loro amazônico B177 FL-VN observa o mundo do seu poleiro sem nenhuma pressa para alçar voo. Foi assim que Alejandro o encontrou nesta tarde: plumagem verde-brilhante com detalhes amarelos na cabeça e manchas vermelhas nas asas, tudo em ordem, tudo inteiro. O problema não está nas asas — elas estão intactas — mas em algum lugar mais difícil de enxergar. Este loro simplesmente não voa, ou não quer, ou já não se lembra muito bem como se faz. O cativeiro deixa essa marca silenciosa. Nem sempre se trata de feridas visíveis ou penas cortadas, mas de um hábito que foi se apagando aos poucos enquanto os dias passavam iguais dentro do recinto. B177 precisa que alguém o convença de que o ar ainda lhe pertence. A equipe de reabilitação começará a trabalhar com ele em atividades de estimulação de voo, com paciência, sem pressa — porque neste ofício a pressa não serve de muita coisa.
Foto de campo

O currucutú que não esqueceu como caçar

Um búho currucutú (Megascops choliba) chegou à Fundación Loros vindo de uma escola da região, cujo nome não ficou registrado. Era um indivíduo que precisava de cuidados antes de poder seguir o seu caminho, e foi Angélica, representante da Fundación, quem o levou, no dia 27 de fevereiro de 2026, até o CAV —Centro de Atención a Víctimas de la fauna silvestre— para dar continuidade ao seu processo de reabilitação. Poucos dias após a entrega, o CAV registrou algo que merecia ser documentado: o currucutú caçando um rato vivo. No vídeo, vê-se a pequena coruja —com seus tufos característicos e aqueles olhos amarelos que parecem saber demais— agir com a precisão silenciosa que define a sua espécie. Não restou dúvida: o instinto permanecia intacto. Esse momento capturado em vídeo é, na linguagem da reabilitação, uma boa notícia. Significa que o caminho de volta está aberto.

O filhote de coruja que atravessou três organizações

Uma escola das redondezas o trouxe sem avisar: um filhote de búho currucutú, pequeno e desorientado, que Carlos recebeu na Fundación Loros e começou a cuidar desde o primeiro instante. No dia 27 de fevereiro, Angélica o levou ao Centro de Atención a la Vida Silvestre do EPA Cartagena, onde Marcela — parceira de sempre da Fundação — e sua equipe técnica o receberam com luvas e atenção cuidadosa, prontos para o que viesse. O que veio foi melhor do que se esperava. No CAV, o currucutú — plumagem cinza-acastanhada, olhos amarelos com aquela seriedade característica dos corujos mesmo quando estão bem — já aparece em vídeo comendo rato, que é o sinal mais claro de que o processo de reabilitação segue no caminho certo. Na foto mais recente, a ave repousa encrespada sobre um monte de galhos verdes dentro de sua gaiola, como quem sabe que ainda não é hora de partir, mas que o momento chegará. Marcela V. nos enviou o relatório desde o CAV no dia 19 de março. O currucutú segue em frente.
Foto de campo

Nicolás mede o terreno para quatro aviários

Há decisões que só se tomam caminhando. No dia 19 de março, Nicolás percorreu a pé uma faixa do terreno da Fundación Loros para responder a uma pergunta concreta: onde vão crescer os dois novos aviários do projeto Ara. Os primeiros, o Aviario #1 e o Aviario #2, já estão construídos e em funcionamento no mesmo setor, separados por apenas alguns metros. Nicolás moveu-se entre eles, mediu com os olhos, sentiu o solo sob os sapatos e começou a marcar os candidatos para o terceiro e o quarto. Os quatro pontos ficaram registrados em uma área compacta, o que sugere que o complexo de aviários do projeto Ara tomará forma como um conjunto concentrado nesse setor da reserva. Os locais provisórios para o Aviario #3 e o Aviario #4 estão a poucos passos dos já existentes, o que poderá facilitar o manejo e o trânsito entre as estruturas à medida que o programa avança. Por ora, são coordenadas e terreno ainda por definir. Mas nesses pontos marcados sobre o mapa está a forma que irá tomando, aos poucos, o lar que o projeto Ara constrói para as araras da costa caribenha.

A pomarosa que alimenta os que ainda aprendem a voar

Na reserva há uma árvore que trabalha sem descanso. Nilson a encontrou carregada até a copa: frutos vermelhos e reluzentes de pomarosa — ou perita, como a chamam por aqui — espremidos entre uma folhagem tão densa que quase não deixa ver o céu. O tronco, robusto e de casca acinzentada, sustenta uma copa tão generosa que parece não conhecer a escassez. A árvore não passa despercebida. Os esquilos a frequentam, e os papagaios silvestres também marcam presença entre seus galhos. Mas há algo mais: os frutos que caem ou são colhidos dessa árvore acabam nos comedouros da Fundación, como alimento para os papagaios que ainda estão em reabilitação — esses que ainda não sabem bem o que fazer com a liberdade que se aproxima. Foi Nilson quem fez a apresentação oficial, fruto vermelho na mão, como quem mostra algo do qual vale a pena se orgulhar. E ele tinha razão.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo

Oito plantas e um mamão colhido com as próprias mãos

Corina conhece o setor Casa Guardianes como se fosse o seu próprio quintal. Nesta tarde chegou acompanhada de quatro visitantes e foi os conduzindo de planta em planta: primeiro o limão, depois o abacaxi com suas folhas pontiagudas apontando para o céu, em seguida a capim-limão, que solta seu perfume mal a gente a toca. Mais adiante, o marañón com suas frutas amarelas e vermelhas pendendo ao sol, a poma rosa, o caimito, a guama e o cilantro de monte, essa plantinha discreta e miúda que cheira a tudo que o seu nome promete. Os turistas não apenas olharam. Cheiraram, tocaram, provaram. E quando chegaram ao mamão, não se contentaram em recebê-lo já cortado: eles mesmos o arrancaram da árvore, com as mãos. Esse momento — o peso da fruta madura, o látex branco nos dedos, o sol das três da tarde caindo entre as árvores — é difícil de explicar de fora. Corina diz, sem rodeios, que eles gostaram. E nesse "gostaram" cabe tudo.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo
Ecos do campo

Quinze crianças sob a pérgola de palma

No dia 22 de novembro de 2025, quinze crianças da região sentaram-se em cadeiras de madeira sob uma pérgola de palma, envoltas pela vegetação tropical que caracteriza os arredores do santuário. À sua frente, um cartaz preto explicava passo a passo o procedimento para reintegrar uma ave silvestre à natureza. Esse detalhe diz tudo: não era uma palestra de grandes palavras, mas de instruções concretas para o dia em que uma dessas crianças receba em casa um papagaio ou um pássaro ferido e não saiba o que fazer. A atividade foi uma parceria entre os biólogos da Fundación Loros e funcionários do Hotel Decameron, e foi registrada por Jender Torres, que esteve presente desde o início. Entre os participantes, infiltrou-se também um cachorro da fazenda, testemunha tranquila da tarde. As crianças escutaram, fizeram perguntas, e foram embora com algo que não cabe em nenhum folheto: a certeza de que sabem como agir. Esse é o tipo de compromisso que a Fundación Loros leva às comunidades vizinhas — um compromisso que se constrói sentado, sob a palma, com tempo e sem pressa.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo
Ecos do campo
⭐ Marco histórico

Sessenta e nove vidas chegaram à Fundación Loros

No dia 11 de junho de 2025, a CORANTIOQUIA entregou à Fundación Loros 69 animais: 38 araras-canindé (*Ara ararauna*), 5 araras-maracanã (*Ara severa*), 11 papagaios-diadema (*Amazona autumnalis*), 7 maitacas-de-cabeça-azul (*Pionus menstruus*) e 8 saguis-de-cabeça-branca (*Saguinus oedipus*). Esses números são os que ficaram registrados na ata de envio. Mas a equipe sabe bem que o caminho é longo antes de se chegar, e que nem todos resistem à viagem. O que é certo, porém, é que a partir daquele dia — a manhã do 11 de junho de 2025 — havia mais asas e mais vida na Fundación Loros.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

Um percurso repleto de sinais vivos

No dia 17 de março, José Marín saiu para caminhar pela reserva e o mato foi lhe entregando seus segredos um a um. O primeiro presente ele encontrou pendurado numa trepadeira: um fruto de balsamina (Momordica charantia) que já havia aberto sozinho, rasgando a casca para revelar o arilo vermelho-vivo que envolve as sementes, aceso como brasa entre os galhos secos. Mais adiante, um esquilo se deixou capturar em vídeo enquanto saltava de árvore em árvore, ágil e indiferente ao observador. Perto dali, quase no mesmo setor, uma guacharaca se anunciou antes de aparecer — como costumam fazer essas aves barulhentas do trópico — e também ficou registrada em vídeo. A última descoberta do dia foi um termiteiro de bom tamanho, construído com paciência de terra e saliva no meio do matagal, cercado de arbustos e galhos entrelaçados. Quatro registros distintos, quatro pontos GPS, um único caminhante. José fechou o relatório com a porta aberta: se algo mais aparecer no caminho, ele manda.
Foto de campoFoto de campo

O vespeiro que pendia entre os galhos

Na terça-feira, 17 de março, enquanto percorria uma área de densa vegetação florestal dentro da reserva, José Marín parou diante de algo difícil de ignorar: um ninho de vespas pendurado em um galho, construído em barro, de forma ovalada e com aquela coloração bege-amarelada que o fazia parecer quase uma fruta estranha em meio ao verde escuro da folhagem. O ninho, de tamanho considerável, carregava as marcas do trabalho silencioso de suas construtoras: camadas de barro moldadas com precisão, aderidas ao galho como se sempre tivessem pertencido àquele lugar. José tirou as fotos e registrou o achado. Na reserva, esse tipo de estrutura é sinal de que a floresta funciona: as vespas polinizam, controlam populações de insetos e ocupam seu lugar na cadeia sem pedir licença a ninguém. As coordenadas estão registradas. O ninho segue lá, entre os galhos, fazendo o que lhe cabe.
Foto de campo

Seis titís no frescor do meio-dia

O calor do meio-dia caía pesado quando Omar Enrique Berdugo Cabeza adentrou a reserva carregando frutas para o grupo de titís. Ao chegar ao ponto de alimentação, não havia rastro deles — então recorreu ao som do tanque, aquele chamado familiar que os macacos já reconhecem — e aos poucos apareceram três, desceram para comer e voltaram pelo mesmo caminho por onde tinham vindo. Omar seguiu o rastro até as coordenadas do abrigo e lá estavam os seis: abrigados na vegetação mais densa, buscando o frescor que a mata oferece quando o sol aperta. Enquanto o grupo descansava na sombra, duas poyonetas rondavam os arredores — essas rapinas silenciosas que de vez em quando lembram aos titís que a mata também tem suas próprias regras. O registro ficou em nove vídeos — alguns apareceram misturados no fio do B20, duas histórias distintas que por um momento compartilharam o mesmo fio antes de Omar separá-las. Os seis indivíduos, completos, frescos, no seu refúgio.

O B20 retorna à gaiola por um tempo

Omar Enrique Berdugo Cabeza chegou naquela tarde à Fundación Loros como chega sempre: com os olhos atentos a tudo antes de começar sua ronda de alimentação. Foi assim que ele o viu. O pionus B20 — um loro cabeciazul arredio, daqueles que jamais se deixam aproximar — estava imóvel em um galho de matarratón, com a plumagem encrespada e uma passividade que não era a sua. Omar se aproximou, e a ave não fugiu. Isso disse tudo. Capturou-o com uma toalha, levou-o para a sala e encontrou os vestígios do que havia acontecido: na asa direita, marcas de um predador que tentou agarrá-lo e não conseguiu; na esquerda, dois canhões de voo ausentes. Com essas asas, o B20 não conseguia se sustentar no ar por mais de dois metros. Pesou-o — 378 gramas —, documentou as lesões com fotos e vídeos, e o reinseriu em uma gaiola com frutas frescas, água e galhos. Depois avisou ao chefe Alejandro e ao companheiro Carlos para deixar tudo em ordem. O B20 já havia conhecido a liberdade. Irá conhecê-la de novo quando as penas crescerem e as asas voltarem a ser suas. Por enquanto, a gaiola é refúgio, não condenação.
Foto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campoFoto de campo

Seis titís e o chamado do tambor

Omar Enrique Berdugo Cabeza chegou ao ponto de alimentação com umas frutinhas na mão e, ao não encontrar ninguém, recorreu ao velho truque: o som do tanque, esse tambor que os macacos tití já reconhecem de longe. Foi preciso esperar. O santuário ficou em silêncio por um momento, com o calor da tarde grudado nas folhas, até que da vegetação começaram a surgir, um a um, os seis indivíduos do grupo. Comeram, e depois partiram de volta para sua zona, como se o compromisso estivesse cumprido. Nessa mesma ronda, duas poyonetas andavam rondando perto da área, atentas aos seus próprios afazeres entre o mato. Omar seguiu o trajeto e os encontrou a todos refugiados na vegetação fresca, buscando sombra contra o calor da tarde. Lá estavam os seis, quietos, descansando naquele canto da reserva que já reconhecem como seu.

Duas vidas novas em Valle Verde

Nesta tarde, no setor de Valle Verde, Angélica Cecilia Mármol Venegas encontrou aquilo que às vezes chega sem avisar: dois cabritos recém-nascidos deitados sobre a terra úmida do curral, uma fêmea e um macho, com a pelagem marrom ainda salpicada de branco, como se alguém tivesse derramado leite por cima deles. Descansavam quietos, com aquela calma própria de quem acabou de chegar ao mundo e ainda não sabe bem onde ficou. Mais acima, nas pradarias abertas que se estendem em direção às colinas, o restante do rebanho seguia sua tarde de sempre: vacas de todas as cores pastando sob a luz morna do fim do dia, e um grupo numeroso bebendo no bebedouro natural, cercado de vegetação tropical e céu azul. Uma cena sem pressa, como convém a este lugar. Na Fundación Loros, o nascimento desses dois cabritos em Valle Verde é um daqueles momentos que a equipe de campo registra com cuidado — pasto de qualidade, água limpa, cercado seguro — para que tudo o que chega ao mundo aqui tenha, desde o primeiro dia, tudo o que precisa.
Foto de campoFoto de campoFoto de campo

Sem palavras do campo, sem crônica

Omar enviou catorze vídeos ao longo do dia, um após o outro, sem uma única palavra de acompanhamento. Do lado do cronista, as mensagens também foram se acumulando: perguntas sobre a espécie, o lugar, quem estava lá, o que havia acontecido. Nenhuma teve resposta. Os vídeos chegaram, mas sem voz não há história. Uma crônica precisa do que a câmera nem sempre captura: o nome do lugar, o cheiro de terra molhada, o detalhe de quem estava ali e por que importa o que viram. Sem isso, essas imagens permanecem mudas na bitácora. Esta entrada fica em aberto. Assim que Omar ou alguém da equipe conte o que gravaram naquele 16 de março, a história encontrará suas palavras.

O esquilo, o orvalho e o papagaio que aprende a calar

Naquela manhã, Omar Enrique Berdugo Cabeza percorreu o santuário com um grupo de visitantes que deixaram seus nomes no esquecimento, mas levaram consigo algo mais duradouro: a imagem dos papagaios verdes sobrevoando os setores B12, B11 e B07, pousando por perto, sem medo, como se esperassem companhia a vida inteira. Foi entre esse voo e esse assombro que apareceu, discreta, uma ardilla silvestre bebendo o orvalho que a madrugada havia deixado adormecido sobre as folhas de bananeira — um daqueles instantes que o santuário presenteia sem aviso. Mais adiante, nos aviários 1 e 4, as guacamayas já estavam entregues ao seu ritual: pimentão, amendoim, mamão, banana e girassol, o café da manhã de sempre, saboreado com aquela solenidade colorida que só elas têm. Mas foi no aviário 3 que a manhã guardou seu momento mais silencioso. O loro real emitia sons imitativos — esse hábito tão humano que nele soa como armadilha — e a equipe, fiel ao protocolo, respondeu com silêncio. Porque aqui a meta não é que o papagaio aprenda a falar como nós, mas que esqueça como fazê-lo, para que no dia em que cruzar a cerca em direção ao mato, voe livre de tudo o que lhe ensinamos.
Foto de campoFoto de campo
Sugerir melhoria