O uvito que floresce e frutifica ao mesmo tempo
Naquele domingo de março, Michel Salas percorreu o jardim do santuário com a calma de quem sabe olhar devagar. Entre os canteiros de cimento e o solo arenoso que o sol resseca sem piedade, foi encontrando uma a uma as plantas que convivem naquele canto verde da Fundação: a Ixora com seus cachos de flores vermelhas acesas, a bugambília derramando seu roxo sobre os galhos da amendoeira, e a sábila expandindo-se em rosetas carnosas perto da área de lazer.
Mas foi o uvito — um Cordia alba de porte generoso e copa ampla — quem roubou a tarde. Michel o fotografou com flores amarelo-alaranjadas e frutos verdes ao mesmo tempo, essa raridade fenológica que ocorre entre fevereiro e março no Caribe colombiano. Espécie nativa de Bolívar e de quase todo o litoral, o uvito é árvore de muitos ofícios: fornece lenha, compõe cercas vivas, alimenta o gado e os polinizadores, e oferece frutos doces que os humanos também podem comer. Suas flores têm sido usadas na medicina tradicional contra dores de estômago e bronquite.
O que as fichas técnicas raramente contam é quem leva suas sementes até o bosque: o morcego frugívoro Carollia perspicillata, esse pequeno navegante noturno que trabalha em silêncio enquanto o jardim dorme.