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Caminho para a Liberdade

Diário de Campo da Fundación Loros


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A arara que já não cabia no aviário

Nem todos os pássaros chegam à liberdade pelo mesmo caminho. Este *Ara severus* — arara-maracanã de gênio difícil — saiu do aviário 1 da Fundación Loros não como um triunfo sereno da reabilitação, mas como uma decisão urgente: a ave havia desenvolvido uma agressividade persistente que a equipe já não podia ignorar, e havia a suspeita fundada de que ela havia matado um dos seus companheiros de cativeiro. Foi Omar e Alberto quem conduziram a soltura, num domingo de março, em um ambiente rural cercado de árvores e terra de quintal caipira. Na foto que chegou do campo, a arara aparece pousada sobre uma estrutura metálica, verde e quieta por um instante, enquanto ao fundo umas galinhas seguem com seus afazeres como se nada tivesse acontecido. Não havia cerimônia. Apenas o momento em que a ave abriu as asas e demonstrou, com voo firme, que seu corpo ao menos estava pronto para o que viria. Às vezes a reabilitação termina assim: sem aplausos, com uma perda lá dentro e uma partida lá fora. A arara foi embora porque era necessário. E porque já voava bem.
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Um amendoim antes de voar

Fazia algumas semanas, alguém na cidade havia capturado este loro amazônico e o trouxera até a Fundação. Era um exemplar imponente, de plumagem verde-intensa com a coroa amarela bem marcada e manchas vermelhas nas asas — o tipo de pássaro que a gente olha e sente que já viveu muito. Ele havia perdido sua plaquinha de identificação, mas a equipe não precisou de mais sinais: aquele loro já andava solto havia tempo, e isso se notava. No domingo, 29 de março, Omar o retirou do Aviário 1A e o pousou no comedouro ao ar livre. O loro não se abalou. Ficou ali, tranquilo, comendo um amendoim com toda a calma do mundo, como se soubesse perfeitamente o que viria a seguir. Quando terminou, abriu as asas e voou sozinho, sem que ninguém precisasse empurrá-lo. Assim se encerrou a passagem deste amazônico — possivelmente *Amazona ochrocephala* — pela Fundación Loros: sem alarde, sem cerimônias. Apenas um pássaro que já conhecia bem o sabor da liberdade, tomando seu tempo para comer alguma coisa antes de voltar a ela.
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Um amazónico que não pôde ser identificado

Alberto encontrou o loro no chão do Aviário 1. Era um amazónico de plumagem verde-brilhante, com marcas amarelas na cabeça e um clarão vermelho nas asas — uma ave que qualquer pessoa teria reconhecido de longe, mas que naquela manhã jazia com o bico aberto e as patas rígidas, sem anel nem medalha que dissesse o seu nome. As fotos e o vídeo registrados pela equipe mostram os sinais do trauma: penas desalinhadas, postura anormal, terra e capim ao redor como testemunhas mudas do que deve ter sido uma briga curta e definitiva. Ao que tudo indica, o Ara severus que divide o recinto foi o outro protagonista da história. As araras-de-peito-castanho são aves temperamentais e territoriais; conviver com elas nunca está isento de risco, sobretudo quando os espaços são disputados com a intensidade que só conhecem as aves que um dia foram selvagens. Não se sabe bem como o conflito começou, nem quanto tempo durou. O que ficou foi o registro cuidadoso de Alberto e da equipe, e a pergunta que sempre dói um pouco mais quando não há anel: quanto tempo esse loro estava conosco, e como ele se chamava?
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Nascidas sozinhas no mato

Jorge Alcalá caminhava pelo santuário quando algo o fez parar: entre as sombras do sub-bosque caducifólio, sobre um tapete de folhas secas e troncos despidos, uma jovem planta arbustiva de folhas largas e verde intenso havia brotado sem que ninguém a tivesse semeado. Um pouco mais à frente, erguida entre a vegetação densa, uma mamoeiro silvestre — Carica papaya — estendia sua coroa de folhas lobadas em direção ao céu azul de março, alta e fina como se sempre soubesse exatamente para onde crescer. Ninguém as plantou. Ninguém preparou a terra para recebê-las. O solo do santuário fez isso sozinho, como há anos vem aprendendo a fazer. As duas plantas, registradas em coordenadas GPS por Jorge, são sinal de que a floresta tem memória própria: ela sabe como voltar.
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A Vara Santa e seus guardas invisíveis

Em algum recanto da floresta da Fundación Loros, entre troncos caídos e folhas secas que forram o chão, Michel Salas parou diante de uma planta que mal chegava aos joelhos. Era uma jovem Vara Santa — Triplaris sp. —, com folhas verdes e reluzentes como se acabassem de ser polidas, nervuras marcadas como rios num mapa, e um caule daquele vermelho-púrpura que têm as plantas quando ainda estão aprendendo a crescer. À primeira vista, mais uma planta do sub-bosque. Mas Michel olhou com mais atenção. Sobre o caule e entre as folhas moviam-se formigas com aquela urgência que lhes é característica, sem pausa, sem destino aparente. Não era coincidência: a Vara Santa e as formigas mantêm há séculos um acordo silencioso. A planta lhes oferece abrigo dentro de seus caules ocos; as formigas, em troca, a defendem. E essa defesa tem um valor concreto nesta floresta: as flores da Vara Santa são tão vistosas que, sem suas guardiãs, alguma mão já as teria colhido há muito tempo. Michel documentou o achado com fotos e vídeo antes de seguir caminho. Uma planta jovem, algumas formigas laboriosas e um pequeno pacto que funciona há tempos — ali, nas coordenadas 10.4411, -75.2575.
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Duas solanáceas e um inseto sem nome

Na Loma del Halcón, Michel Salas encontrou o que o cerrado seco guarda sem anunciar: duas espécies do mesmo gênero crescendo entre a serapilheira e o solo exposto, cada uma com sua própria linguagem de cor. A de flor branca revelou-se Solanum torvum; a de flor roxa, Solanum subinerme. Ambas em terreno árido, ambas com as folhas perfuradas por insetos que comeram e seguiram seu caminho sem deixar nome. As seis fotografias que Michel trouxe contam mais do que as palavras conseguiram naquele dia. Em uma delas, sobre os frutos verdes e miúdos do Solanum torvum, repousa um inseto de tons avermelhados e laranja que ainda não tem identificação em nossos registros. Está ali, quieto, como se esperasse que alguém lhe desse o nome que lhe pertence. Esse dado permanece em aberto. Por ora, a Loma del Halcón soma duas solanáceas documentadas e um mistério de seis patas que a equipe terá de desvendar na próxima saída.
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A pringamosa que avisa antes de ser tocada

Michel Salas percorria uma área de mata arbustiva de solo seco quando se deparou com ela: uma pringamosa (*Urtica urens*) bem estabelecida, com suas folhas largas de bordas denteadas e os caules cobertos de tricomas brancos que brilhavam sob o sol da tarde. A planta crescia entre galhos caídos e vegetação variada, discreta à primeira vista, mas com todo o aviso escrito na própria pele. Michel documentou a planta com quatro fotografias que capturaram seus detalhes um a um: as pequenas flores brancas desabrochando na parte alta do caule, os frutos verdes ainda em formação, e aquela textura aveludada que faz da pringamosa uma especialista em se defender sozinha. O ponto ficou registrado em coordenadas exatas, numa área semi-aberta da reserva onde a vegetação cresce misturada e sem ordem aparente. A *Urtica urens* é urticante por natureza: seus tricomas funcionam como seringas microscópicas que injetam um coquetel irritante ao menor contato. Não é uma planta que passe despercebida duas vezes. Michel a reconheceu, a respeitou e a registrou. Isso é suficiente.
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O venenito que cura na montanha

Jorge Alcalá e Michel Salas caminhavam pelo limite da reserva quando a encontraram: uma Rauvolfia littoralis, o arbusto de folhas lustrosas que os camponeses desta costa caribenha chamam de venenito, ou simplesmente solita. Era um registro novo naquele ponto — um daqueles achados que não se anunciam com fanfarra, mas que aparecem ao virar de uma curva, entre a sombra e o calor da tarde. O que torna esta planta singular não é apenas sua presença na reserva, mas a memória que carrega. No saber tradicional da região, a solita tem sido usada como contraveneno para picadas de cobra — um conhecimento que corre de boca em boca e de geração em geração, paralelo a qualquer manual de botânica. Encontrá-la aqui, nestas coordenadas, é também encontrar um fragmento desse saber vivo. O achado ficou registrado no dia 29 de março de 2026. Sem fotografia por enquanto, mas com a precisão de quem sabe olhar o mato.

Duas plantas sem nome completo na Loma del Alcón

Michel Salas caminhou ontem pela Loma del Alcón com os olhos bem abertos. Entre a vegetação densa do sub-bosque, onde a luz se infiltra de vez em quando e o chão exala cheiro de terra úmida e folhiço, encontrou uma planta do gênero Solanum exibindo ao mesmo tempo: bagas verdes pequenas agrupadas em cachos e flores brancas de centro amarelo, como se não conseguisse decidir entre frutificar ou florescer. As folhas grandes e levemente aveludadas, atravessadas por fios de teia de aranha, completavam o quadro. Mais adiante, uma planta arbustiva de porte médio chamou sua atenção com flores brancas maiores despontando entre os galhos. Não é Datura, esclareceu Michel com segurança, embora a semelhança à distância possa enganar. Por ora fica registrada como espécie a identificar, uma daquelas perguntas abertas que o mato da Fundación Loros guarda com calma, esperando que alguém lhe dê um nome.
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Um Cojón de Fraile que ninguém plantou

Caminhando entre a folhagem seca e as pedras dispersas do bosque, Jorge Alcalá e Michel Salas se depararam de repente com ele: um indivíduo jovem de Cojón de Fraile (*Tabernaemontana cymosa*) crescendo sozinho, sem que ninguém o tivesse plantado ou cultivado. As folhas grandes e ovais, de um verde intenso com nervuras bem marcadas, abriam caminho entre a vegetação rasteira, enquanto ao fundo se erguia o tronco robusto de uma árvore mais velha — como se o bosque o estivesse acolhendo em silêncio. Esse crescimento espontâneo é um bom sinal. Significa que o solo, a sombra e a umidade do lugar estão em condições de receber novos indivíduos dessa espécie nativa. O achado foi registrado em 29 de março, com fotografia e coordenadas precisas — um dado pequeno que se soma ao mapa vivo que a Fundación Loros vai construindo, percurso a percurso, nestas 520 hectares.
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Bagas negras com fama de curar mordidas

Num canto herbáceo da reserva, entre sombras de árvores e capim semisseco, Michel Salas e Jorge Alcalá pararam diante de uma planta ainda jovem: caule único, folhas largas e verdes, e um punhado de bagas negras maduras pendendo entre os galhos como contas de colar. Era uma Rauvolfia tetraphylla, espécie pertencente à família Apocynaceae que, nessa região, carrega uma reputação que viaja de boca em boca entre os moradores do campo: dizem que serve para tratar mordidas de cobra. O achado foi registrado no dia 29 de março nas coordenadas 10.44006, -75.25697, num terreno semiaberto onde a vegetação se mistura sem ordem aparente. A planta crescia discreta, sem se anunciar, como costumam crescer as que têm história. A Rauvolfia tetraphylla é uma espécie nativa do trópico americano e, embora seu uso medicinal tradicional esteja difundido em várias comunidades, sua toxicidade exige respeito: não é planta para se tocar sem saber o que se faz.
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A árvore que os pássaros já batizaram

Jorge Alcalá e Michel Salas caminhavam entre a vegetação densa da reserva quando se depararam com uma árvore jovem de tronco fino e galhos abertos para os lados, como se quisesse abraçar o mato que a cerca. Era uma Trema micranthum — embora por estas terras ninguém a chame assim. Aqui a chamam de 'pajarito' ou 'periquito', nomes que a gente da região foi atribuindo, com certeza porque sabem bem o que acontece quando os frutos amadurecem. Naquele dia os frutinhos ainda estavam verdes, apertados nos galhos entre folhas de bordas dentadas e luz solar que se infiltrava pelo dossel. Ainda não era hora. Mas o nome já diz tudo: essa árvore tem um encontro marcado com as aves da Fundación Loros, e quando a temporada chegar, a Trema vai cumprir.
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O kapo da ceiba e seus visitantes verdes

Sob um céu aberto e entre galhos de folhagem escassa, Jorge Alcalá e Michel Salas encontraram hoje uma Ceiba pentandra em plena estação seca. A árvore, imponente em suas formas mesmo sem folhas, estava soltando seus frutos: deles brotava o kapo, aquela fibra branca e algodoada que envolve as sementes e as lança ao vento para que viajem longe. No campo, a primeira impressão foi de teia de aranha, mas não: era a ceiba fazendo o que sabe, dispersando sua descendência com a leveza de quem não tem pressa. Enquanto Jorge e Michel observavam as sementes em voo, dois periquitos verdes — Brotogeris jugularis — haviam se instalado entre os galhos e bicavam os frutos verdes com a tranquilidade de quem conhece bem a despensa. Esses pequenos papagaios de garganta laranja são visitantes frequentes de árvores em frutificação, e hoje a ceiba bonga tinha a mesa posta para eles. O registro ficou completo: árvore, fruto, fibra, semente e fauna associada, tudo em um único ponto da reserva. Às vezes o campo entrega assim suas descobertas, todas de uma vez, sem se anunciar.
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A uvita mocosa em dois tempos

Na Loma del Alcón, Michel Salas e Jorge Alcalá encontraram a Cordia dentata fazendo o que poucos árvores se permitem ao mesmo tempo: florescer e frutificar. A uvita mocosa, como é conhecida por esses caminhos, mostrava em seus galhos dois momentos da própria vida de uma só vez — frutos verdes e cerrados em cachos, brilhantes sob o sol de março, e outros já mais desenvolvidos, daquele branco-creme que anuncia a maturidade, pendendo com certa leveza entre a folhagem. O céu azul e aberto daquele domingo fazia belo contraste com os verdes do setor, e a árvore parecia alheia a qualquer observador, tranquila em sua fenologia. Não havia fauna naquele dia — nenhum pássaro, nenhum inseto registrado —, apenas a planta em seu próprio ritmo, e dois pesquisadores atentos a documentá-la. As fotos capturaram os dois estados com clareza: a promessa verde dos cachos imaturos e o fruto esbranquiçado que já carrega um trecho do caminho percorrido. Fica no diário de campo: a Loma del Alcón tem sua Cordia dentata ativa, e Michel e Jorge estiveram lá para contar.
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O guácimo que sustenta a terra seca

Num canto de terra arenosa e arbustos baixos, Jorge Alcalá e Michel Salas pararam diante de um guácimo que crescia solitário, com os galhos estendidos como quem há anos oferece sombra sem que ninguém precise pedir. A árvore — Guazuma ulmifolia, para quem aprecia o nome científico — surgia robusta em meio à secura, com a folhagem verde contrastando contra um céu sem uma única nuvem de chuva. Não é um achado espetacular à primeira vista, mas quem conhece o cerrado sabe que o guácimo é daquelas árvores trabalhadoras que não fazem alarde: seus frutos alimentam a avifauna durante as temporadas mais difíceis, e suas raízes prendem os solos soltos que de outra forma o vento e a água levariam consigo aos poucos. Num terreno tão seco e arenoso como este, sua simples presença conta uma história de resistência silenciosa. O registro ficou documentado em fotografias e coordenadas. Mais uma árvore no mapa da Fundación, e também uma pequena prova de que há vida agarrada a este solo.
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Um guásimo lutando em várias frentes

Em Loma del Alcón, Michel Salas parou embaixo de um guásimo velho e olhou para cima: o céu azul se infiltrava entre os galhos com mais facilidade do que o normal, porque a folhagem escasseia. De baixo se via tudo: o tronco grosso e rugoso cheio de cavidades abertas por pica-paus ou por insetos xilófagos, e enroscada entre os galhos mais altos, a silhueta inconfundível de uma Loranthaceae — essa planta parasita que enterra suas raízes na madeira alheia e não larga mais. A árvore, no entanto, ainda não disse sua última palavra. Alguns galhos conservam folhas verdes, um sinal de que por dentro ainda circula algo de vida. Mas o panorama é o de um organismo sob pressão: a parasita se aproveitando da copa, as cavidades enfraquecendo o tronco, a folhagem recuando pouco a pouco. Michel tirou duas fotos, registrou as coordenadas e deixou documentado o achado. Em Loma del Alcón fica marcado este guásimo — imponente ainda, resistindo, mas claramente em tensão — para que o santuário saiba onde ele está e possa acompanhar seu pulso.
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Um matarratón sob o céu de savana

No domingo, 29 de março, Michel Salas adentrou uma das zonas de solo arenoso do santuário com uma missão clara: documentar a flora que cresce em silêncio entre a terra seca e o céu azul da região. Nesse percurso de caracterização, deteve seus passos diante de um matarratón — Gliricidia sepium — de porte considerável, com a folhagem verde-brilhante acesa pelo sol do meio da tarde e uma vagem seca pendendo de um galho fino como a última lembrança de uma floração passada. Com cinco fotografias, Michel capturou a árvore de diferentes ângulos: as folhas compostas pinadas recortadas contra o azul aberto, a paisagem de savana que a envolve, os galhos que se abrem para cima com aquela generosidade silenciosa que caracteriza essa espécie. O indivíduo registrado encontrava-se em bom estado vegetativo, firme no seu lugar de sempre, indiferente ao calor. O matarratón é daquelas árvores que os camponeses do litoral conhecem bem: serve para cercas vivas, para sombra, para melhorar o solo. Encontrá-lo estabelecido na área de influência da Fundación Loros, nas coordenadas 10.4399, -75.2572, é um dado que fica consignado agora no mapa vivo do santuário.
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A sombra do guásimo onde as aves descansam

Numa curva do caminho de terra, Michel parou por um instante e apontou: um guásimo de porte médio, com seus galhos abertos derramando sombra sobre um banquinho que alguém havia colocado ali embaixo. A árvore — Guazuma ulmifolia, conhecida por estas terras pelos seus frutos miúdos e pela madeira resistente — erguia-se sozinha contra um céu azul sem uma nuvem, com a vegetação baixa do trópico fechando o fundo como um pano de fundo verde. Alejandro anotou o ponto e a espécie, mas o que Michel queria registrar era algo além de uma árvore: era o lugar. Ele disse que muitas aves pousam ali, que a vista daquele ponto é bonita, e propôs que se tornasse um local oficial de refúgio ou descanso dentro da reserva. Naquele dia não havia aves para reportar — apenas o guásimo quieto, a sombra fresca e o caminho seguindo em frente —, mas o ponto ficou marcado nas coordenadas 10.4400°N, 75.2572°O, aguardando a sua vez.
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Dois ninhos sob o ninho da arara

Michel Salas caminhava entre as colinas do santuário quando ergueu os olhos e encontrou aquela imagem: dois ninhos pendentes de oropéndola cianopúrpura (*Psarocolius decumanus*) balançando entre os galhos de uma *Pseudoalbizia neopodoides*, uma árvore de tronco múltiplo que se recortava nítida contra o céu azul da tarde. Mais acima, nos galhos superiores da mesma árvore, uma arara ocupava seu próprio espaço. Uma única árvore, duas espécies, duas histórias de nidificação sobrepostas. Os ninhos da oropéndola são inconfundíveis: longos, tecidos com fibras vegetais, pendem como bolsas ao vento nas pontas dos galhos. Michel registrou o achado com duas fotografias e um vídeo, documentando aquela vizinhança pouco comum entre a oropéndola e a arara que compartilhavam, sem conflito aparente, a mesma árvore nas coordenadas 10.4398, -75.2573 da reserva. Essa associação interespecífica em uma única árvore é exatamente o tipo de dado que o monitoramento de aves na Fundación Loros busca acumular: a prova silenciosa de que a floresta está viva e complexa, e de que cada árvore pode ser um mundo.
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Duas flores roxas no mesmo caminho

Michel Salas caminhava pela reserva quando o roxo o deteve duas vezes. A primeira foi uma Ipomoea —campainha, glória-da-manhã, como se queira chamá-la— enrolada com determinação ao redor de um galho, abrindo sua flor violeta ao sol do meio-dia. As folhas exibiam mordidas de algum inseto que havia passado por ali antes, e um comboio de formigas negras patrulhava o caule de cima a baixo, indiferente à câmera. Alguns passos adiante, quase escondida entre capim seco e folhas caídas, Michel encontrou uma planta jovem que erguia timidamente o que parecia ser uma Clitoria ternatea —flor-borboleta— do mesmo tom púrpura, como se as duas espécies tivessem combinado a cor sem jamais se conhecerem. O solo ao redor era aquela mata silvestre densa que caracteriza os cantos mais tranquilos das 520 hectares da Fundación Loros, perto de Cartagena. Michel fotografou as duas, enviou a localização e seguiu seu caminho. Às vezes o campo fala assim: sem aviso, em roxo.
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Um totumo que chegou sozinho

Há coisas que a floresta faz sem que ninguém peça. Jorge Alcalá e Michel Salas caminhavam pelo sub-bosque do santuário, no nordeste da reserva, quando o viram: um totumo jovem — Crescentia cujete — brotado da terra por conta própria, sem que mão humana o tivesse plantado ou ajudado. Folhas lanceoladas, verde-brilhante, firme sobre um tapete de folhas secas cercado de vegetação densa. Nasceu sozinho. O totumo é árvore de longa história nestas terras do Caribe. De seus frutos redondos, os povos indígenas esculpiram totumas e maracas; hoje suas sementes viajam com o vento e com os animais que dispersam seus frutos. Que um deles tenha escolhido este canto do santuário para criar raízes é, em si mesmo, um sinal de que o lugar tem o que precisa para viver. Jorge e Michel o fotografaram, registraram as coordenadas e o deixaram como estava. Às vezes o trabalho de campo é exatamente isso: descobrir o que já está acontecendo e dar testemunho disso.
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Flores brancas e espinhos sob o sol de março

Jorge Alcalá caminhava pelo sub-bosque da reserva quando encontrou, entre a penumbra verde e úmida, uma touceira discreta de flores brancas de quatro pétalas: Ruellia blechum, nativa dessas encostas, que as abelhas conhecem melhor do que ninguém. Era 29 de março e o calor da tarde pesava, mas ali, naquele canto sombreado da Fundación Loros, a planta florescia sem alarde, como se sempre tivesse estado esperando para ser anotada. Mais adiante, já em plena luz, Jorge deparou com uma planta diferente: espinhosa, de folhas ovais com aquele brilho característico das plantas acostumadas ao sol inclemente. Houve um momento de dúvida — Caesalpinia? outro gênero? — até que a equipe se inclinou por Pithecellobium. A espécie exata fica em aberto; por ora o gênero basta, e a planta fica registrada com seu mistério intacto nas coordenadas 10.43985, -75.2576917. Duas espécies, um percurso, a tarde de domingo fechando-se sobre a reserva.
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A que fecha suas folhas ao toque

Há plantas que preferem o silêncio e a carícia. Neste domingo, Jorge Alcalá e Michel Salas caminhavam entre a vegetação densa da reserva quando se depararam com uma delas: a dormideira, essa Mimosa pudica que carrega no nome o seu hábito mais célebre. Ali estava, entrelaçada com outras plantas silvestres, suas folhas bipinadas abertas como pequenas plumas verdes e seus caules armados de espinhos diminutos. A luz se infiltrava entre a folhagem enquanto Jorge e Michel documentavam a presença dos exemplares: os folíolos simétricos, o verde intenso que quase brilhava, a ordem perfeita dessa arquitetura vegetal que à primeira vista parece frágil. A dormideira é planta de solos perturbados e bordas de caminho, e sua presença nesta zona da reserva fala de como a vida silvestre ocupa cada canto disponível, com ou sem testemunhas.
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Dois pioneiros sobre o cerrado baixo

Ninguém os plantou. Ninguém os transplantou nem os cuidou com água ou adubo. Os dois guarumos que George encontrou nas coordenadas do setor sul simplesmente apareceram, como costumam fazer os pioneiros: sem avisar, abrindo caminho. Erguem-se sobre o cerrado baixo com suas folhas enormes em forma de sombrinha, recortados contra um céu azul sem uma única nuvem, e de longe já se destacam acima de tudo o mais. O guarumo — Cecropia peltata — tem esse hábito: chegar primeiro quando a floresta começa a lembrar que foi floresta. É a espécie que abre a porta para as demais, a que diz ao solo que ele já pode voltar a ser o que era. E para os pássaros, é abrigo e despensa; várias espécies da avifauna local dependem de seus frutos e de sua sombra. O fato de dois deles terem brotado sozinhos neste ponto é, para a equipe da Fundación, um sinal que não passa despercebido. Duas árvores. Coordenadas registradas, foto no diário de campo, dado salvo. Pequeno na aparência, mas na linguagem da restauração espontânea, isso é o começo de algo.
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A Passiflora que encontrou sua escada

Michel Salas e Jorge Alcalá caminhavam naquela tarde no trabalho de caracterização de plantas quando a encontraram: uma Passiflora subindo sem pressa sobre um arbusto de Caesalpinia, como se a mata lhe tivesse oferecido uma escada sob medida. O céu estava aberto e a luz batia direta sobre as folhas verdes e brilhantes, revelando as gavinhas finas que a trepadeira havia enrolado entre os galhos de sua hospedeira. Os frutos eram pequenos e ainda verdes, longe de amadurecer, mas já anunciavam o que estava por vir. Na vegetação densa daquele setor do santuário, onde o mato guarda sua própria ordem, esse encontro entre duas espécies nativas — a que sustenta e a que trepa — é exatamente o tipo de detalhe que uma caracterização traz à luz: não o achado espetacular, mas a vida ordinária da floresta funcionando à sua maneira.
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Abejorros em flor amarela de março

No meio da tarde daquele domingo, 29 de março, Jorge Alcalá e Michel Salas caminhavam por um dos setores de vegetação secundária da Fundación Loros quando o amarelo intenso de algumas flores os fez parar. Era Senna fruticosa, um arbusto da família das leguminosas, que naquele dia exibia ao mesmo tempo suas flores abertas e suas vagens verdes bem formadas: floração e frutificação juntas, como se a planta quisesse mostrar tudo aquilo de que é capaz. Ela não estava sozinha. Entre as flores, alguns abejorros — gênero Bombus — faziam seu trabalho silencioso de forrageamento, indo de flor em flor com aquela determinação tranquila que os caracteriza. Ao fundo, as encostas cobertas de vegetação densa sob um céu azul de março. Jorge e Michel fizeram cinco fotos e deixaram registrado esse pequeno encontro entre planta e polinizador, no meio de uma paisagem que segue se refazendo.
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Uma goiabeira com frutos que ainda esperam

Nas coordenadas que George marcou naquele domingo de março, há uma goiabeira que ainda não amadureceu seus frutos. Os cachos verdes pendem entre a folhagem sob um céu sem uma única nuvem, enquanto algumas folhas amarelas e marrons nos galhos denunciam o peso do calor seco. Ninguém a visitava naquele momento — nenhum pássaro, nenhum mamífero — mas a árvore estava lá, quieta e carregada de promessas. O registro não foi por urgência nem por um achado surpreendente. George o anotou como ponto de referência: um recurso alimentar que a fauna do santuário poderá encontrar quando esses frutos passarem do verde ao amarelo pálido e o cheiro adocicado começar a chamar. A goiabeira (Psidium guajava) é uma daquelas árvores que trabalham em silêncio, acumulando açúcar devagar, até que um dia se tornam o centro de tudo. O ponto ficou marcado no mapa. Quando os frutos amadurecerem, saberemos onde procurar.
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A Pata e' Vaca que ninguém havia anotado

Na manhã do dia 29 de março, Michel Salas e Jorge Alcalá adentraram um dos potreros abertos da reserva, onde o pasto seco crepita sob os pés e o sol bate sem misericórdia desde cedo. Entre a vegetação baixa e dispersa, encontraram o que procuravam — ou talvez o que não esperavam encontrar: vários indivíduos de Pata e' Vaca (Bauhinia sp.), uma leguminosa nativa que neste recanto da savana cresce há séculos sem que ninguém o tivesse registrado. A planta os recebeu em diferentes estados, como se quisesse se mostrar por inteiro: árvores jovens e esbeltas recortadas contra o céu azul, galhos com folhas verdes e flores ou frutos amarelos ainda frescos, vagens verdes e infladas ao lado de vagens secas que o calor havia torcido em espiral, e ramos com espinhos finos que deixam claro que esta planta não é apenas bonita. Michel e Jorge documentaram tudo em sete fotografias tomadas de diferentes ângulos, construindo um retrato completo do ciclo da espécie. O achado fica registrado nas coordenadas 10.4399°N, 75.2575°O, nessa paisagem de campo aberto que à primeira vista parece vazia e que guarda, entre o pasto e o vento, muito mais vida do que se imagina.
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Olivo negro nascido sozinho em terra vermelha

Em um canto de Los Montes de María, entre arbustos e céu azul aberto, Jorge Alcalá e Michel Salas se detiveram diante de algo que não esperavam encontrar: um indivíduo jovem de Capparidastrum frondosum — o olivo negro — brotando sozinho do solo avermelhado e árido, sem que ninguém o tivesse plantado. Suas folhas grandes e lustrosas contrastavam com a terra seca e a vegetação rasteira ao redor, como se a planta tivesse decidido por conta própria se instalar ali. O que torna este achado especial é duplo. Por um lado, trata-se de regeneração natural em uma floresta tropical seca, ecossistema onde cada planta que nasce por si só tem seu peso. Por outro, o olivo negro não é uma espécie qualquer para as pessoas desta região: é conhecido como "contra", com um lugar próprio na tradição local que vai muito além do botânico. Essa história — a da árvore que cresce sem ajuda em solo difícil e que os vizinhos reconhecem pelo nome — é exatamente o tipo de sinal que Jorge e Michel vieram documentar.
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O guásimo que trabalha turno duplo

Numa tarde de céu azul sem uma única nuvem, Michel Salas e Jorge Alcalá pararam diante de uma árvore que não conseguia se decidir entre florescer e frutificar. Era um guásimo — Guazuma ulmifolia — plantado em zona rural aberta, com a terra seca aos pés e os galhos carregados ao mesmo tempo de pequenas flores amarelas e de frutos rugosos em todas as idades possíveis: os verdes e rijos dos recém-nascidos, os negros e secos dos que já cumpriram seu ciclo. Não estavam sozinhos nessa árvore. Michel anotou que as flores são frequentadas pelas reinitas — essa turma inquieta da família Parulidae — enquanto os frutos são parada obrigatória para os psitaciformes, os loros e seus parentes. Uma mesma árvore, duas mesas postas, dois grupos de comensais distintos. Foram tiradas cinco fotografias do indivíduo e de seu entorno. O guásimo ficou registrado nas coordenadas 10.4399°N, 75.2576°O, somando-se ao inventário vivo da Fundación como uma daquelas árvores discretas que sustentam mais vida do que se imagina à primeira vista.
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O que guarda o mato: família Leguminosae

Michel Salas e Jorge Alcalá saíram para caminhar pelo santuário com olhos de botânicos. A jornada era de caracterização de plantas, esse trabalho paciente de parar, observar, fotografar — dar nome e registro ao que o mato já sabe há muito tempo. As coordenadas os levaram a um setor onde a vegetação se mistura em diferentes idades e formas: arbustos jovens, árvores já crescidas, trepadeiras que se enrolam entre umas e outras. O que encontraram foi, quase sem querer, um capítulo inteiro da família Leguminosae. Estava lá o Pata e' Vaca (Bauhinia sp.), com suas folhas partidas em dois lóbulos como pegadas impressas no ar. Mais adiante, uma árvore com flores amarelas que parecia ser um Cassia, e uma trepadeira com vagens longas e verdes que pendiam entre a folhagem. E depois, retorcidas contra o céu azul, as vagens secas do que bem poderia ser um Prosopis ou uma acácia — duras, em espiral, como se o fruto tivesse aprendido a se desenrolar sozinho ao secar. Sete fotografias ficaram do percurso: árvores jovens com o futuro pela frente, frutos em diferentes estágios de maturação, e a mão de Michel segurando um galho para mostrar a escala. Um inventário tranquilo, sem alarde, do tipo de vida vegetal que sustenta esse pedaço de mato perto de Cartagena.
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O quebracho que ninguém convidou a voltar

Michel Salas e Jorge Alcalá caminhavam por uma encosta de declive suave, com o céu azul de março comprimido contra a copa das árvores, quando encontraram o que ninguém havia plantado: um quebracho — Astronium graveolens — que havia decidido retornar por conta própria. Alguém o havia cortado antes. Não importa quando. O que restou daquele toco guardou o suficiente para recomeçar, e ali estava, de porte médio, rodeado de arbustos silvestres e terra seca, como se nada tivesse acontecido. O quebracho é daquela madeira que os antigos usavam para o que deveria durar — mourões, cercas, estruturas que o tempo não conseguisse vencer. Mas hoje, neste ponto da reserva, seu valor está em outra coisa: em que pode chegar a trinta metros de altura, e em que já segue seu caminho sem que ninguém o conduza pela mão. A foto que tiraram naquele domingo o mostra sozinho contra o azul, sem companhia, com todo o trabalho ainda pela frente.
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Frutos verdes no sub-bosque do santuário

Entre a vegetação densa e o bambu que despontava ao fundo, Michel Salas e Jorge Alcalá pararam diante de um arbusto discreto, mas de presença inegável: pequenos frutos verdes e redondos, agrupados em cachos cerrados, que a luz da tarde fazia brilhar entre a folhagem. O solo seco e terroso sob os pés, o céu azul e limpo sobre as copas — tudo indicava uma jornada de campo sem trégua, daquelas em que o olhar treinado encontra o que outros deixam passar. A planta pertence ao gênero Solanum, família Solanaceae — parente distante do tomate e da batata, embora nesta floresta tropical próxima a Cartagena carregue sua própria história. Algumas folhas exibiam tons amarelados, sinal de possível estresse, enquanto outras ostentavam um verde intenso e vigoroso. Por ora, o registro permanece no nível do gênero; a espécie exata aguarda confirmação. É assim que se constrói o conhecimento de um lugar: um arbusto de cada vez, algumas coordenadas, dois nomes próprios e a paciência de voltar quando houver mais certezas.
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O Culo de Indio que alimenta a floresta

Entre a folhagem úmida e a penumbra do sub-bosque, Michel Salas encontrou um indivíduo jovem de Matayba scrobiculata abrindo suas folhas largas e brilhantes em direção à pouca luz que se infiltra entre os galhos. A planta, conhecida nestas terras como Culo de Indio, crescia tranquila em uma zona de mata densa da reserva, rodeada de matéria orgânica e o murmúrio invisível de um mato que se reconstrói por conta própria. O que torna especial esta árvore nativa da família Sapindaceae não é seu porte — ainda jovem, mal se revelando — mas o que promete: seus frutos são um recurso importante para a avifauna local, uma despensa que atrai e sustenta aves em diferentes épocas do ano. Por isso a espécie também é usada ativamente em processos de restauração ecológica, plantando aos poucos os elos que uma floresta precisa para voltar a funcionar. Este registro nas coordenadas 10.4399, -75.2573 é um bom sinal: o Culo de Indio está ali, enraizado, esperando crescer.
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As flores amarelas de Michel na floresta

Entre a vegetação densa do santuário, Michel Salas parou diante de um arbusto que não merecia ser ignorado: a Bola de Gato, Thevetia ahouai, erguida entre dois e três metros com suas folhas longas e brilhantes como fitas verdes ao sol. Era um dia de floração intensa, e a planta não escondia isso — botões apenas despontando, botões a meio abrir e uma flor completamente desdobrada, toda ela de um amarelo tubular que chamava a atenção mesmo sob a luz filtrada pelo dossel. Pertence à família Apocynaceae, uma linhagem de plantas que guarda segredos: vistosa e chamativa por fora, a Thevetia ahouai é também tóxica em quase todas as suas partes, daí talvez o apelido popular de Huevo de Gato, esse nome que mistura ternura e cautela. Michel fotografou o achado com cuidado, capturando os diferentes estágios do florescimento, antes de registrar as coordenadas e seguir caminho. É o tipo de encontro que nos lembra que nas 520 hectares da Fundación Loros há muito mais do que os olhos alcançam de relance — às vezes basta parar onde o amarelo brilha entre o verde.
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O Muñeco que já tem descendência

Num recanto de vegetação densa da reserva, sob um sol que se infiltrava entre as copas, Michel Salas e Jorge Alcalá pararam diante de um Muñeco (*Cordia collococca*) de uns oito metros de altura. A árvore exibia suas bagas vermelhas e brilhantes em abundância, e enquanto a fotografavam de diferentes ângulos, uma ave negra — atraída pelos frutos — se deixou ver entre os galhos. Cinco fotografias ficaram como testemunho daquele momento: a copa frondosa, o cacho aceso de vermelho, o visitante alado. Mas a história mais discreta estava embaixo, entre as folhas secas e os restos do sub-bosque: um indivíduo jovem da mesma espécie, com suas folhas grandes e verdes empurrando para cima desde a penumbra. Ninguém o havia plantado. Chegou sozinho, como chegam as coisas que encontram as condições para ficar. O Muñeco é uma espécie nativa do Caribe colombiano, e este registro — adulto fértil mais regeneração natural no mesmo ponto — confirma que nesta parte da reserva a espécie não apenas sobrevive: está se reproduzindo por conta própria.
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O Muñeco carregado de frutos

Jorge Alcalá e Michel Salas caminhavam pela reserva quando pararam diante de um Muñeco —Cordia collococca— carregado de frutos. A árvore, vestida com esses pequenos cachos que amadurecem entre o verde denso do mato, estava ali oferecendo o que tem em silêncio, como sempre fez. O achado fica registrado nas coordenadas que apontam um canto preciso das 520 hectares da Fundación Loros. Não é um dado qualquer: quando uma espécie entra em frutificação, a fauna sabe disso antes de qualquer um. Os loros e as demais aves frugívoras da reserva encontram no Muñeco um recurso que vale a pena acompanhar de perto. Esta observação, simples no papel, é mais uma peça do mapa vivo que a equipe de campo constrói registro a registro.

O Muñeco carregado de vermelho

Num recanto de vegetação densa do santuário, Michel Salas e Jorge Alcalá se depararam no domingo com um Muñeco — Cordia collococca — de uns oito metros que parecia ter entrado em festa. Os galhos retorcidos da árvore pendiam repletos de bagas vermelhas e brilhantes, algumas ainda verdes, espalhadas pela folhagem como pequenas brasas acesas sob um céu azul sem uma única nuvem. Enquanto Michel documentava os frutos de perto, um pássaro negro se esgueirou entre os galhos da copa, tão absorto no banquete que quase ignorou a câmera. Era a confirmação de algo que os registros botânicos nem sempre capturam: uma árvore em plena frutificação é também um refeitório comunitário, e o Muñeco naquele dia recebia visitas. O registro ficou em cinco fotografias que mostram desde a copa frondosa até o detalhe fechado dos cachos. O Muñeco pertence à família Boraginaceae, e sua presença em zona silvestre densa é um bom sinal do estado da floresta nativa nesta parte do santuário.
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Um tití recém-nascido e uma árvore para as araras

Victoria e Rosa chegaram à reserva com vontade de mergulhar de cabeça, e o dia não as decepcionou. Junto com Alejandro e Carlos, percorreram os aviários desde cedo: prepararam a alimentação dos papagaios, fizeram exercícios de voo e pararam para avaliar como avança a reabilitação de alguns indivíduos. O B177 ainda não alça voo — move-se apenas pelas paredes do aviário 1 — e o B190 já voa, mas ainda não domina o pouso e bate contra a tela. São os progressos lentos, os que se medem em semanas, os que mais importam. Os papagaios B11 e B12, por sua vez, receberam as visitantes no parque das crianças com toda a confiança do mundo. Durante o passeio no Can-Am, Carlos demonstrou ter olhos de falcão: em movimento, foi identificando esquilos, iguanas, tartarugas e, escondido no alto de uma árvore, um coendú — o porco-espinho arbóreo destas selvas — tão camuflado entre os galhos que parecia parte da paisagem. No lago da ceiba, uma fêmea de tití apareceu entre as árvores com algo minúsculo agarrado ao corpo: um filhote nascido no dia anterior. Ela não desceu aos comedouros. Ficou a dez metros de altura e quinze de distância, nos observando com cautela, como deve ser. Happy, a cachorrinha mestiça da reserva, acompanhou cada passo do percurso. Ao final, Victoria e Rosa pegaram uma pá e plantaram uma árvore na área onde as araras aprendem a voar livres.
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Carlos e o espinhoso habitante das alturas

Entre o emaranhado de galhos e lianas que forma o dossel da floresta úmida do santuário, Carlos ergueu o olhar e se deparou com um visitante inesperado: um puercoespín arbóreo acomodado nas alturas, tão quieto e bem camuflado entre a vegetação que quase passava por mais um nó na madeira. Fotografou-o com cuidado, sem perturbá-lo, e o animal nem se mexeu. O puercoespín arbóreo — conhecido também como coendú — é um daqueles mamíferos noturnos que passam o dia enrolados entre os galhos, confiando em que seus espinhos e sua paciência os tornem invisíveis. Desta vez, a estratégia quase funcionou. Quase. É a primeira vez que registramos a presença desta espécie no santuário, o que nos lembra que as 520 hectares da Fundación Loros ainda guardam muitas surpresas entre sua folhagem.
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Frutos escuros no Tamarindo

Entre as raízes de uma árvore e entrelaçada em troncos secos, uma trepadeira desconhecida chamou a atenção de José Marín durante seu percurso pelo setor El Tamarindo. Pendurados nos caules, alguns frutos ovalados e alongados de cor negro-arroxeada — semelhantes a abóboras escuras — balançavam quietos no calor da tarde. Dois deles foram documentados em fotos: um repousando no chão entre as raízes, o outro ainda preso à trepadeira. José não reconheceu o nome da planta, mas a registrou com cuidado. Os especialistas a identificaram provisoriamente como possível *Benincasa hispida*, conhecida em outras latitudes como melão-de-inverno, embora sua presença silvestre neste setor do santuário abra mais perguntas do que respostas: chegou sozinha, trazida por algum animal, ou há uma história humana por trás dessa trepadeira crescendo entre a madeira morta? Por ora, o setor El Tamarindo guarda o segredo entre suas folhas.
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Dezenove sinos e um intruso de peito laranja

No dia 23 de março, Omar saiu para a área de alimentação como faz todas as manhãs: encheu as bandejas e tocou o sino. As araras já estavam lá, inquietas e atentas, mas foi o som metálico que as reuniu de vez. Em questão de minutos, congregaram-se 17 araras-canindé (*Ara ararauna*) e uma Cheja (*Ara severus*), formando aquele redemoinho de cores e alvoroço que já lhes conhecemos tão bem. Entre elas, mais um. Um indivíduo que não se encaixa bem: peito laranja vivo, dorso de verde misturado com azul, uma paleta que não corresponde a nenhuma espécie pura. Possivelmente um híbrido nascido do tráfico ou da criação ilegal, já faz dias que volta a este mesmo lugar, procurando o seu espaço entre o grupo. Ainda não o encontrou, mas continua aparecendo.

Mamón de mico aparece em Miradores

O monitor Omar caminhava pelo setor de Miradores, pertinho do caminho, quando algo o deteve no meio do mato. Ali, entre lianas entrelaçadas e arbustos encharcados pela chuva recente, surgiu um mamón de mico — espécie que raramente se deixa ver dentro do santuário. A árvore maior exibia sua copa densa, as folhas grandes e escuras salpicadas d'água, e entre a folhagem despontavam pequenos frutos ou flores brancos que brilhavam tênues contra o verde úmido da tarde. Não estava só. Mais adiante, enfiado na vegetação fechada, Omar encontrou outro exemplar menor, quase escondido entre galhos e trepadeiras. "Chefe, mais pra frente tem outro", ouve-se ele dizer no áudio, com a calma de quem sabe que o que acabou de encontrar não é coisa de todo dia. Dois mamones de mico no mesmo percurso — um adulto, outro que mal está começando — num recanto da floresta tropical úmida que os guardava sem que ninguém os tivesse registrado antes. O achado ficou documentado em quatro fotografias, dois vídeos e um áudio. O setor exato dentro do santuário ainda está por confirmar, mas as coordenadas apontam para o coração de Miradores, onde o caminho se perde entre a vegetação e a chuva cobre tudo de silêncio.
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Sete titis e um filhote no Lago 2

Carlos Andrés Matas Contreras caminhava pelo setor Lago 2 da Finca El Paraíso quando os encontrou: seis macacos titis se movendo entre a vegetação, e um pouco afastada do grupo, uma fêmea com seu filhote agarrado ao corpo. O pequeno ia montado sobre a mãe como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo — e provavelmente era. Mais adiante, já na Finca Los Guardianes, Carlos Andrés se deparou com outro habitante discreto da reserva: um porco-espinho. Daqueles que quase nunca se vê, mas que estão sempre lá, se movendo lentos e seguros entre a folhagem. Os três avistamentos ficaram registrados em vídeo. Duas fazendas, duas histórias distintas na mesma manhã. É assim que a reserva vai revelando o que tem, aos poucos, para quem sabe caminhar devagar e olhar com cuidado.

Nicolás e sua família erguem um novo lar para as Ara

Na sexta-feira, 27 de março, nas instalações da Fundación Loros, soaram pela primeira vez as marteladas e o barulho característico de uma construção nova. Nicolás chegou naquele dia acompanhado de seus familiares, com as mãos prontas para o trabalho: juntos, puseram em marcha a obra de uma aviária pensada para abrigar araras do gênero Ara, essas aves de plumagem acesa que precisam de espaço, altura e estrutura para se recuperar antes de retornar à mata.

Oito chauchau e uma só voz de alarme

No setor Los Guardianes, perto da jaula de Cameron, o guardião Omar Enrique Berdugo notou algo fora do comum: oito chauchau reunidos, cantando sem parar, todos com o olhar voltado para o chão. Não era o canto disperso do meio-dia nem o agito de sempre — era aquele som insistente, coordenado, que esses pássaros reservam para quando têm algo a dizer. Berdugo se aproximou devagar. Ali, entre a serapilheira, estava a razão de tanto alvoroço: um patoco quieto no chão, sem pressa, alheio à pequena assembleia que o denunciava lá de cima, entre os galhos. A serpente não havia passado despercebida nem por um instante — a floresta tem seus próprios sistemas de vigilância, e os chauchau estão entre os mais eficientes. Foi um lembrete de algo que no santuário se aprende depressa: é preciso saber escutar. Não foi o olho do guardião que encontrou o patoco primeiro — foram aquelas oito vozes insistentes que lhe mostraram onde olhar.

Tamarindo começa a ter nome no mapa

Há lugares na reserva que toda a equipe conhece de cor — os portões que rangem ao amanhecer, os caminhos que os pés já decoraram — mas que até agora não existiam em nenhum mapa. O setor Tamarindo era um desses. Esta tarde, Nicolás passou a Alejandro três coordenadas precisas: a entrada, a saída e a gaiola que serve de ponto de referência dentro do setor. Três pontos simples, mas suficientes para que Tamarindo comece a ter coordenadas próprias. Não houve avistamentos para contar nem liberações para celebrar. Apenas o trabalho silencioso de quem constrói a infraestrutura invisível do santuário: os dados que permitem se orientar, planejar percursos e deixar registro do que existe nessas 520 hectares perto de Cartagena. Um mapa que cresce, ainda que seja de três pontos em três pontos.

O cucarachero tímido que se deixou ver

Há pássaros que vivem entre nós como segredos bem guardados. O cucarachero ventribarrado —*Pheugopedius fasciatoventris*— é um deles: anda sempre entre a espessura da floresta úmida, nervoso, escorregadio, sem nenhuma intenção de pousar para ninguém. Por isso, quando Maicol González subiu ao cerro El Peligro no dia 26 de março e o encontrou pousado em um galho fino, quieto, com aquele dorso vermelho-canela aceso pela luz filtrada entre a folhagem, soube que era um momento diferente. Eram dois indivíduos, provavelmente um casal, movendo-se sem pressa pela vegetação. Maicol levantou a câmera devagar e disparou. A imagem que ficou mostra a ave de frente, o peito branco e o ventre cruzado por listras negras, o fundo verde e dourado da floresta desfocado atrás. Não é a primeira vez que Maicol registra a espécie na reserva, mas é a melhor foto que conseguiu — e a gente entende por que ele diz isso quando a vê. Em 520 hectares de mata como os da Fundación Loros, são essas pequenas vitórias que importam: um pássaro tímido que, por um instante, decidiu ficar.
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Azul elétrico no caminho do arroio

Maicol González seguia pelo caminho do arroio, no cerro El Peligro, quando algo azul deteve seus passos. Pousado sobre um galho seco, quase imóvel em meio ao barulho da mata, havia um caballito del diablo de um azul tão intenso que parecia iluminado por uma outra luz. Ele o fotografou ali mesmo, com o fundo de pedras e folhas secas levemente desfocado, e o inseto como senhor absoluto do enquadramento. O registro pertence à ordem Odonata, subordem Zygoptera — os caballitos del diablo, primos mais delicados das libélulas. Pela coloração intensa, o gênero poderia ser Argia ou Enallagma, dois grupos comuns no Caribe colombiano, embora a espécie exata precise ser confirmada por um especialista. O que é certo é que sua presença fala bem do arroio ali próximo: esses insetos só prosperam onde a água é limpa e o ecossistema, saudável.
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Frutos verdes sob o céu de Los Guardianes

José Marín caminhou esta tarde pelo setor Los Guardianes com os olhos voltados para o alto. As palmeiras de coco se erguiam contra um céu azul de nuvens brancas, e entre suas longas folhas abertas pendiam cocos em diferentes estágios: os mais novos quase escondidos, os maduros pesando para baixo com aquela calma que têm os frutos que já cumpriram seu tempo. Alguns passos adiante, uma árvore de mamón roubava toda a atenção. Os galhos se curvavam sob o peso de centenas de frutos verdes apertados entre folhas reluzentes, prometendo a colheita que está por vir. Duas coordenadas, duas árvores, uma tarde de campo sem grandes novidades — que na reserva, às vezes, é a melhor notícia que existe.
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Dois tanga tangas e um cavaleiro na manhã

Naquela quinta-feira de março, José Marín percorria a reserva quando encontrou o que tantas vezes se esconde entre a folhagem: dois tanga tangas ocupados com o que lhes é próprio, comendo sem pressa, alheios ao mundo. Ele os registrou em vídeo antes que o momento se desfizesse, e no fundo do quadro apareceu Eder Ruiz cruzando a cavalo pelo mesmo setor, como se a cena precisasse dessa figura para se completar. O avistamento ficou marcado nas coordenadas 10.4451777, -75.264972, mais um ponto no mapa vivo da Fundación Loros. As duas aves, tranquilas e se alimentando, são um sinal de que o território continua sendo o que deve ser: um lugar onde a vida selvagem encontra espaço para existir sem sobressaltos. José seguiu em campo pelo resto do dia, com os olhos abertos e a esperança de que a jornada guardasse algo mais. Essa paciência — a do observador que caminha sem pressa e olha com cuidado — é a mesma que torna possível este registro, e todos os que ainda estão por vir.
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Trinta e três fotos com Cyrus na UTV

Na segunda-feira, 23 de março, Corina saiu para percorrer o santuário na UTV com Cyrus Bueche, um visitante chegado dos Estados Unidos. O céu estava aberto e os caminhos de terra carregavam o cheiro úmido da vegetação em plena floração. Não tinham avançado muito quando apareceram as guacamayas chejas — dois Ara severus de asas abertas, um deles marcado com a anilha E101 — e logo adiante, os ararauna em voo livre cortando o ar azul com aquele amarelo que parece recém-pintado. Ao longo do caminho foi se formando uma lista que ninguém havia planejado: quatro rapinantes distintos pousados ou em voo, um momoto de peito alaranjado observando do alto do seu galho, um rascón se esquivando entre a vegetação, um pica-pau agarrado à sua árvore, um beija-flor verde e tornasolado suspenso diante de uma flor magenta. Os loros amazônicos — um deles com a anilha B11 — bicavam pepino e pimentão vermelho com uma calma que fazia pensar que o mundo não tinha mais urgências. Pelos caminhos, um cavalo marrom-avermelhado avançou tranquilo em direção à câmera, e mais adiante um burro carregado de sacos seguiu seu próprio rumo sem se perturbar. Corina parou a UTV mais de uma vez para atender ao cão de pelagem dourada que os acompanhou durante o percurso. Trinta e três fotos ficaram daquela segunda-feira: a memória de um santuário que não precisa se anunciar para mostrar o que tem.
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Ecos do campo

O Chocorocoy do bigode negro

No dia 18 de março, perto da casa do paraíso, Maicol ergueu a câmera com cuidado e capturou algo que não esperava: um Cucarachero Chocorocoy (Campylorhynchus nuchalis) forrageando entre galhos secos e folhas enroladas, como se o mundo não existisse além daquela trama árida. A ave se movia devagar, confiante, exibindo sua plumagem mosqueada em branco e preto enquanto farejava a vegetação. Mas foi um detalhe que fez Maicol manter o olho colado ao visor: um bigode negro, marcado e nítido, que cruzava o rosto do pássaro com uma elegância quase cômica. Em todos os seus anos percorrendo o santuário, jamais havia visto essa característica tão pronunciada em um Chocorocoy. Três fotos conseguiu tirar antes que a ave desaparecesse entre o matagal. O Campylorhynchus nuchalis é uma espécie comum nas zonas áridas do norte da Colômbia, conhecida pelo seu temperamento barulhento e pela plumagem inconfundível. Mas naquele dia, nas 520 hectares da Fundación Loros, um deles se deu ao luxo de ser um pouco mais memorável que os demais.
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Quatro aves na Casa del Paraíso

No dia 18 de março, Maicol caminhava pelos arredores da Casa del Paraíso quando se deparou com um pequeno encontro sem hora marcada. Ali estavam B120, uma Amazona autumnalis com sua placa verde bem visível, e B67, uma Amazona ochrocephala pousada tranquila sobre um galho seco. As duas placas de identificação — verdes, discretas — contam em silêncio que essas aves já fazem parte do radar do santuário há algum tempo. Não muito longe delas, uma Ara severus completava o grupo com sua plumagem verde intensa, o anel branco ao redor do olho amarelo e sua própria plaquinha pendurada ao pescoço. E como convidado sem identificação, um Momotus momota se deixou ver entre os galhos: coroa azul elétrico, olho vermelho, o bico curvo como um instrumento de precisão. Nenhum comportamento fora do comum naquele dia — apenas quatro aves em sua rotina, e Maicol com o olhar e a câmera no momento certo.
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Uma nova gaiola cresce no mato

Em algum ponto entre a folhagem e as coordenadas —10.4347, -75.2426, onde Alejandro marcou o lugar desde o campo— Nicolás está instalando uma nova gaiola para o programa ARA. Há uma árvore nesse ponto, ou assim acreditam, e por isso foi pedida a confirmação da localização exata antes de dar o trabalho como certo. É assim que a Fundación trabalha: primeiro o mapa, depois o martelo. A gaiola foi pensada para abrigar cerca de vinte indivíduos de arara —azul e amarela ou vermelha, conforme o que o processo confirmar: Ara ararauna ou Ara macao—. Vinte araras daquelas que enchem o céu de algazarra e cor, que precisam de espaço para se recuperar antes de voltar a voar livres. A instalação segue em andamento, e o ponto no mapa ainda aguarda verificação.

Sombra, ají e vacas na trilha

Na quarta-feira à tarde, José Marín saiu para percorrer uma das propriedades da Fundação na zona rural perto de Cartagena, onde o sol cai pesado e o pasto vai semanas sem ver chuva. Não demorou muito para encontrar o que procurava: dois bovinos de um castanho avermelhado, bem tranquilos, deitados à sombra de uma árvore grande. São animais da Fundação, e estavam exatamente onde qualquer um esperaria encontrá-los num dia de calor — quietos, pacientes, alheios ao mundo. Alguns passos adiante, entre a vegetação seca e as árvores que margeiam o sendero com suas flores rosadas, José se deparou com um pé de ají picante silvestre carregado até não poder mais. Os frutos pendiam em toda a sua desordem: uns vermelhos e alaranjados, brilhantes de tão maduros; outros roxo-escuro, quase negros, no seu próprio tempo. Uma planta que ninguém semeou, que cresceu sozinha naquele terreno árido e decidiu florescer assim mesmo. Foi um percurso sem grandes novidades, daqueles que servem para confirmar que a propriedade está em ordem. Mas às vezes basta isso — duas vacas à sombra e um pé de ají aceso em cores — para que um dia de campo valha a pena ser contado.
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O dia em que a floresta recebeu seus inquilinos

No dia 20 de março, num recanto de mata úmida da Fundación Loros, uma fila inusitada cruzou o sub-bosque: policiais, marinheiros da Armada Nacional, funcionários do EPA Cartagena e a equipe da Fundação carregando gaiolas de transporte entre a serrapilheira. Lá dentro viajavam gambás jovens — essas criaturas de focinho afiado e olhos como botões negros — junto a tartarugas de carapaça cinza-escura e um coruja de plumagem marrom que encarava o mundo com aquela calma solene que os noturnos carregam à luz do dia. Quando abriram as gaiolas, não houve cerimônia. Os gambás se esgueiraram entre as folhas como se sempre soubessem que aquele era o seu lugar. As tartarugas avançaram devagar, no seu tempo, em direção à vegetação rasteira. A coruja encontrou os galhos baixos de uma árvore e ficou imóvel, camuflada entre os talos secos, esperando que o mundo se esquecesse dela. Alguém as acompanhou com um celular de capinha azul, tentando capturar o instante antes que o mato as engolisse. A ata oficial com o detalhamento de todas as espécies e os números exatos ainda está a caminho — quem a envia é o Centro de Atención de Primates —, mas as fotos já dizem bastante: uma floresta que, naquela tarde, recebeu de volta alguns dos seus inquilinos mais discretos.
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La Mella e o gesso que chegou no dia seguinte

No setor Vista Hermosa, a bezerra que todos chamam de La Mella amanheceu na segunda-feira com a pata traseira esquerda fraturada. Não houve malícia no ocorrido: foi a própria mãe quem, num descuido, pisou nela. Para imobilizar a fratura enquanto o inchaço baixava, nilsonenrique74 improvisou uma tala de urgência com duas tábuas e algumas ataduras — essa solução provisória, simples e eficaz, que no campo às vezes é tudo o que se tem à mão. No dia seguinte, assim que a inflamação cedeu o suficiente, chegou a hora do gesso. Alberto Orozco, auxiliar de veterinária, realizou o engessamento definitivo do membro. Nas fotos e vídeos que chegaram de Vista Hermosa, vê-se La Mella deitada no chão de terra batida, as patas presas com cabuya amarela, enquanto Orozco trabalha com calma sobre a pata enfaixada. Na última imagem, ela já está de pé, com o gesso branco à mostra e outro bovino adulto espiando por cima da cerca, no rústico curral de madeira. No momento do registro, La Mella se encontra estável.
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O dia em que o santuário não parou de surpreender

Naquela sexta-feira de março, Omar Enrique Berdugo Cabeza saiu para percorrer as dependências da Fundación Loros e o setor de Los Guardianes como se o santuário inteiro tivesse decidido se colocar em exibição. Tudo começou ao lavar as bandejas das aves: ao virar uma delas, apareceu uma raninha marrom diminuta, tranquila sobre a palma de sua mão como quem posa para um retrato. Depois foi Negrillo, o loro, que sem qualquer aviso desceu e pousou no seu ombro. No aviário 2, encontrou um livo pollero preso que não achava a saída; mais adiante, os seis titis estavam todos presentes na hora da refeição. E no caminho de volta por Los Guardianes, uma casinha abandonada guardava sua própria surpresa: um golero juvenil que havia crescido ali, entre paredes sem dono. De volta à fundação, a vida continuou aparecendo a cada passo — um geco de cabeça laranja sobre os tijolos, um ácaro vermelho como uma gota de veludo na casca de uma árvore, uma louva-a-deus tão pequena que cabia na ponta de um dedo, um gafanhoto verde pousado sobre um joelho, uma iguana negra entre as folhas secas, borboletas rondando as flores e uma poyoneta visitando o terraço. Numa árvore de borracha, uma ave de bico e cauda amarelos e plumagem negra que ninguém esperava encontrar. Mas a imagem do dia chegou no final: numa nespereira, dois loros silvestres haviam escolhido a caixa-ninho doada para se instalar, tranquilos e livres, como se já soubessem que aquele espaço era deles. Não muito longe, os loros dos aviários 1 e 2, aquecidos pelo verão, recebiam o jato de uma mangueira e se esfregavam contra as folhas molhadas para que as gotas frescas ficassem entre as penas.
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Um tití solitário entre as mangueiras

José Marín caminhava por um dos setores de floresta da reserva quando o avistou: um tití cabeciblanco solitário, imóvel entre o emaranhado de troncos finos e galhos entrecruzados. Era 24 de março e a floresta exibia seus sinais de estio — folhas amareladas, galhos caídos, o céu coberto de cinza. O animal estava só, sem rastro do grupo, observando a partir da vegetação densa com aquela mistura de curiosidade e cautela que caracteriza os Saguinus oedipus. O que também ficou registrado naquele dia, e vale a pena deixar anotado para as análises que virão, é que nesse mesmo setor existem cinco árvores de mango. Não é um detalhe menor: as mangueiras são fonte de alimento e os titís sabem disso muito bem. Talvez isso explique a presença solitária do animal naquele ponto, ou talvez não — mas a coincidência merece acompanhamento. José documentou o avistamento com três fotografias do setor. A espécie está catalogada em perigo crítico de extinção e cada registro na reserva soma à história do que aqui persiste e se move.
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O tití que o grupo deixou para trás

José Marín já caminhava há um bom tempo pela mata seca quando o mato lhe guardou uma surpresa. Era depois do meio-dia e as árvores já exibiam aquela aparência descarnada da transição entre as estações — troncos brancos, galhos sem folhas, o chão forrado de folhas que rangiam a cada passo — quando, num dos percursos que faz de rotina pela reserva, entre os pontos que margeiam o setor sul da Fundación Loros, um movimento rápido entre os galhos chamou sua atenção. Era um tití cabeza blanca (Saguinus oedipus), sozinho. Ali estava o registro que faria tudo o mais — incluindo um carpinteiro gigante que havia avistado mais cedo em outro ponto do trajeto — passar para segundo plano. O indivíduo era macho, aparentemente jovem, e se deslocava a grande velocidade entre os galhos sem nenhum grupo ao redor. Para Marín, com seus anos de mata, aquilo não fazia sentido: o tití é animal de família, animal de bando, daqueles que não se afastam nem quando o mato está quieto. Vê-lo sozinho aponta para que tenha sido expulso pelo seu grupo — um comportamento tão atípico que merece acompanhamento. As cinco fotografias que conseguiu tirar mostram a paisagem seca e o indivíduo entre os galhos. O vídeo ainda estava carregando quando o percurso terminou.
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